Crítica: 'O Diabo Veste Prada 2' prova que boa comédia não sai de moda
'O Diabo Veste Prada 2' é uma sequência honesta e divertida

No fim de 'O Diabo Veste Prada' (2006), Emily (Emily Blunt) diz à substituta de Andy (Anne Hathaway): 'Você tem grandes sapatos para preencher. Espero que você saiba disso'. A mensagem valia também para os criadores de 'O Diabo Veste Prada 2', que estreia nesta quinta (30) no Brasil. Ao se propor a fazer uma sequência da comédia icônica dos anos 2000, eles tinham uma missão complicada.

Tudo bem que já era meio caminho andado ao trazer de volta Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci. Até as roteiristas e o diretor voltaram — bom sinal. Mas Hollywood está aí para provar que ainda dá para errar, mesmo com o elenco certo. A nostalgia leva muita gente ao cinema, mas não sustenta um filme do início ao fim.

'O Diabo Veste Prada 2' não deixa de ser nostálgico: do suéter cerúleo ao retorno de 'Vogue', da Madonna, a sequência não fica sem easter eggs para os fãs. Felizmente, quem temia se decepcionar pode ficar tranquilo. O segundo filme pode não alcançar o status de clássico do original (só o tempo dirá), mas diverte, agrada fãs e se desprende o suficiente para criar uma nova história.

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O diabo agora é outro

Um bom blockbuster é feito para ser 'levinho', alto-astral, mas ainda conversa com sua época. É o que os dois filmes fazem bem: enquanto o primeiro satirizava a mentalidade opressora da moda nos anos 2000, este aborda uma crise no jornalismo atual que não poupa ninguém — nem os intocáveis chefões de outrora. De certa forma, o filme é bem atualizado e pode tocar mais gente que o anterior. Afinal, há demissões em massa, trabalhos reféns do algoritmo, choques geracionais e um personagem perigoso da atualidade: o bilionário com poder para comprar, vender e desmantelar empresas centenárias.

Neste filme, os personagens evoluíram. Vemos Andy Sachs (Anne Hathaway), agora uma jornalista confiante que, apesar da competência, logo fica desempregada. Ela é chamada para ajudar sua ex-chefe Miranda Priestly (Meryl Streep) a gerenciar uma crise, enquanto a revista 'Runway' e o jornalismo atravessam um período desafiador.

A 'eterna assistente' Emily também deixou a revista. Agora, ela já tem um caminho construído na moda, chefia uma grife e não leva desaforo para casa. A mudança mais notória é que Miranda se torna, oficialmente, alguém por quem torcemos. Afinal, até ela está à mercê dos caprichos de ricaços que assumem a gestão da empresa. Qualquer semelhança é mera coincidência: em 2025, houve forte especulação de que Jeff Bezos queria comprar a empresa responsável pela Vogue como 'presente' à sua esposa.

Se antes Miranda era 'o diabo' que dá nome ao filme, não é que ela tenha virado um anjo. Mas desta vez, é mais uma anti-heroína que a vilã da trama. (Agora faz sentido por que Anna Wintour não se importou em participar da divulgação, mesmo sendo a inspiração para a personagem 'má' de Meryl.) Por um lado, suavizar a personagem tira um pouco da nuance — podemos torcer pela revista e ainda detestar Miranda, por que não? Mas por outro, como espectadores, não dá para reclamar.

Atuações brilhantes

Com uma Miranda mais humana, Meryl Streep tem espaço para fazer o que faz de melhor. Sua atuação é quase uma carta de amor à personagem, um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Todo o elenco principal está em ótima forma: são atores de renome que não precisam provar nada, mas se dedicam a essa 'comedinha' com notável carinho. Destaque para Stanley Tucci, eterno Nigel, que entrega os momentos mais sensíveis do filme, com ternura característica.

Divertido e honesto

'O Diabo Veste Prada 2' tem ritmo acelerado e tramas que não funcionam tão bem, como o relacionamento de Andy, que entra como mero acessório (talvez um mea culpa das autoras, já que no primeiro as mulheres ambiciosas acabaram solteiras). Em muitos momentos, segue a estrutura do anterior: o manuscrito de 'Harry Potter' agora é uma entrevistada que não fala com a imprensa, a viagem a Paris agora é Milão. Considerando a premissa que ainda não tem solução na vida real, a resolução é um pouco superficial. Mas tudo bem, ninguém esperava profundidade.

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O que esperamos está aqui: um filme que não é cópia barata, mas uma extensão legal do primeiro. É simplesmente gostoso de assistir. Com humor menos afiado (mas ainda divertido) e bons looks, 'O Diabo Veste Prada 2' é uma sequência mais honesta que boa parte das franquias recentes. A prova de que uma boa comédia dramática, com grande elenco, nunca sai de moda.