Carnaval, Política e a Marcha da Quarta-feira de Cinzas: Reflexões sobre Cultura e Sociedade
Carnaval e Política: Reflexões sobre Cultura e Sociedade

Carnaval e Política: Uma Relação Histórica e Contemporânea

A imortal "Marcha da Quarta-feira de Cinzas", composta por Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes em 1962, merece ser revisitada em tempos de tanta baixaria nas músicas de Carnaval e tanto radicalismo dos diversos blocos políticos. Carnaval é catarse. Não é para ser levado a sério, mas sim compreendido como expressão cultural complexa que reflete os anseios e contradições da sociedade.

Letras, Censura e Evolução Cultural

Na história das letras das marchinhas de Carnaval que embalaram gerações, mais da metade seria vetada pelas restrições politicamente corretas dos dias atuais. Entretanto, nos critérios de julgamento contemporâneos, as letras chulas das músicas "funks" e de axé baiano, reproduzidas em altos decibéis nos trios elétricos, também enfrentariam questionamentos. A dualidade entre tradição e modernidade se manifesta claramente nesta esfera cultural.

Nunca vi um juiz de menores proibir o quadro "Dança da garrafa" exibido nas manhãs de domingo no "Programa do Gugu", no SBT de Silvio Santos, onde meninas de seis a dez anos dançavam por cima de garrafas de cerveja. Quando o responsável pelo "hit", o dublê de PM-BA e cantor da Companhia do Pagode, contou no "Programa do Jô" a versão oficial da 'música', que envolvia humilhação de travestis nas prisões, Jô, um homem fino e culto, não escondeu o constrangimento. A baixaria do "funk" começou por aí, mas encontrou seu espaço na cultura popular.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Religião, Sincretismo e Controvérsias

Também nunca vi um pastor evangélico ou qualquer cardeal católico investir fortemente contra o conteúdo ou as mensagens de Carnaval dos trios elétricos, dos blocos e das escolas de samba, mesmo discordando dos enredos com apologia às religiões de matrizes africanas. Estas religiões já foram mais abraçadas pelo povo preto que representa mais de 53% dos 213 milhões de brasileiros.

Em 1989, já na redemocratização, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugênio Salles, conseguiu que a Justiça proibisse a apresentação do "Cristo Mendigo" da Beija-Flor. O carnavalesco Laíla cobriu a imagem com plástico preto e colou uma faixa que dizia "Mesmo proibido, olhai por nós". O enredo era "Ratos e urubus, larguem a minha fantasia", e a escola de Nilópolis foi campeã, demonstrando a força da expressão artística frente às tentativas de censura.

No governo Vargas, período ditatorial quando a Igreja Católica tinha forte influência, é conhecido o "branqueamento" feito nos rituais da Umbanda e da Jurema, por pressão dos cardeais. Os rituais de Salvador são exemplos do sincretismo, que mistura entidades do candomblé com santos católicos, criando uma rica tapeçaria cultural única no mundo.

Inovação e Tradição nos Desfiles

Vejo muito barulho por nada, dos dois lados do cordão por onde desfilou o enredo da Acadêmicos de Niterói, que subiu da série Ouro para o grupo Especial e desceu novamente na primeira apresentação. Os enredos de escolas de samba são concebidos para causar na avenida, onde o que menos conta é o ritmo da batucada e a evolução dos passistas e mestres-salas e porta-bandeiras.

Na mistura entre escolas e antigos ranchos, os carros alegóricos ganharam alturas e engenhos de luxo para exibir artistas e personalidades do samba. A justiça premiou outra escola de Niterói, a Viradouro, que fez o enredo em torno de um ícone dos desfiles, o mestre Ciça, demonstrando que a tradição continua valorizada.

Para meu gosto, a inovação ecologicamente correta da Mocidade Independente de Padre Miguel, feita pelo carnavalesco Renato Lage, que em respeito ao apego de Rita Lee pela preservação dos animais aboliu o uso de penas e peles das fantasias, mostrou um caminho novo. Plasticamente, o colorido psicodélico deu um banho de espuma na mesmice do abuso de plumas e paetês que encobrem sambas absolutamente fracos.

A Beleza Fundamental e a Crítica Social

Já dizia Vinicius: 'beleza é fundamental'. Os carnavalescos precisam criar enredos que tenham fluência musical e deixar de lado temas apelativos que transformam a passarela em um gramado e dividem as arquibancadas como num Fla X Flu. Por isso, recorro à letra de "Marcha da quarta-feira de cinzas", em ritmo de marcha-rancho:

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

"E no entanto é preciso cantar e rir / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade / A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar / Todos vão sorrir / voltou a esperança, é o povo que dança / Contente da vida, feliz a cantar"

É ou não é uma grande diferença? Mas há como fazer irreverência sem xingar a mãe ou fazer ofensas a determinadas camadas da sociedade. É o caso do "samba-enredo" do anárquico bloco "Que Merda é Essa?", de Ipanema, que teve eco na Suprema Corte dos Estados Unidos.

Conexões Internacionais: Trump, Tarifas e Diplomacia

Diz o samba, cujo enredo é "Vai taxar o olho do seu cupuaçu": "Agora, um pedaço de bosta; Quer tirar Nossa Senhora, A Paz; Açaí, Mandioca, Pirarucu; Ô Seu Cara de Laranja; Vai taxar o Olho do seu Cupuaçu". A crítica ao protecionismo comercial encontra eco em desenvolvimentos internacionais significativos.

Depois de ser forçado a recuar pela reação da população que se espalhou por várias cidades e estados americanos, a Suprema Corte dos Estados Unidos parece ter se mostrado sensível à reação popular ao autoritarismo do governo Trump. Por seis votos a três, os juízes derrubaram o tarifaço de Trump por considerar que foi adotado sem autorização do Congresso.

Nem o emprego nem a inflação, e muito menos o crescimento reagiram como os assessores de Trump supunham. A decisão mexeu com os mercados, enfraqueceu o dólar, e as cotações das "commodities" dispararam. Trump, tentando esconder o tamanho da derrota, tratou de anunciar que iria criar uma tarifa geral de 10%, demonstrando a persistência de políticas protecionistas.

Brasil no Cenário Internacional

No giro que fez pela Ásia, logo após o domingo de Carnaval, o presidente Lula não só aproveitou para ficar de fora do disse-me-disse do enredo da Acadêmicos de Niterói, como ampliou o esforço para reduzir a dependência econômica da China e dos EUA. Tratou de incentivar o comércio bilateral, com trocas recíprocas de mercadorias e moedas - incluindo tecnologia para a exploração de terras raras, e excluindo o dólar como moeda de referência.

Embora tenha sido um dos países mais atingidos pelo tarifaço açulado pelo clã Bolsonaro, o tiro saiu pela culatra. O julgamento não parou. O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro foi condenado, com outros réus de alta patente, pela tentativa de golpe contra o Estado Democrático. Está cumprindo 27 anos de prisão numa cela especial da Papudinha.

De recuo em recuo nos tarifaços, o presidente americano abriu diálogo com o presidente Lula em setembro, quando ambos discursaram na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Daqui a três semanas, fortalecido pela ampliação do comércio ex-China e ex-Estados Unidos, o presidente brasileiro vai encontrar um enfraquecido presidente americano, após a decisão da Corte Suprema.

Casos Paralelos: Vorcaro e Epstein

Com sua pinta de galã canastrão, o dono do liquidado Banco Master, Daniel Vorcaro, está mais parecendo com Jeffrey Epstein, o "suicidado" na prisão em agosto de 2019. Com as investigações agora no STF, em mãos do ministro André Mendonça, vamos tirar a limpo se Vorcaro era mesmo o banqueiro que arrotava ser, promovendo eventos com altos figurões da República.

Ou apenas o dono de uma casca de ovo garantida pelo seguro do Fundo Garantidor de Crédito, a qual fazia se passar por um refinado Ovo Fabergé, presenteado pelo joalheiro Peter Carl Fabergé aos antigos czares russos. A comparação revela as complexidades e contradições do mundo financeiro e suas interseções com o poder.

O Carnaval, portanto, não é apenas festa. É espelho da sociedade, reflexo das tensões políticas, expressão das contradições religiosas e termômetro das relações internacionais. Desde as marchinhas clássicas até os enredos contemporâneos, passando pelas críticas sociais e conexões globais, revela-se como fenômeno cultural profundamente enraizado na experiência brasileira.