Carlos Alberto de Nóbrega lamenta extinção de programas de humor na TV aberta aos 90 anos
Carlos Alberto de Nóbrega critica fim de humor na TV aos 90 anos

Carlos Alberto de Nóbrega reflete sobre o fim do humor na TV aberta ao completar 90 anos

Quem visita os estúdios do SBT, localizados em Osasco, na Grande São Paulo, se depara com três bandeiras hasteadas no horizonte: a do estado de São Paulo, a do Brasil e uma com o logo da própria emissora. Este cenário não é mera coincidência, pois o canal fundado por Silvio Santos representa um território único no universo televisivo e na memória afetiva dos brasileiros. Carlos Alberto de Nóbrega, que celebra 90 anos na próxima quinta-feira (4), é um dos pilares fundamentais dessa casa, onde está há quase quatro décadas, sustentando um gênero que parece estar em extinção na televisão aberta.

O desaparecimento dos programas de humor e a insegurança das emissoras

Horas antes de gravar uma edição especial de A Praça É Nossa em homenagem ao seu nonagenário, com convidados especiais, o humorista expressou sua tristeza em uma conversa com jornalistas sobre o sumiço desse tipo de programa na TV. Segundo ele, o principal motivo é a insegurança que outras emissoras demonstram ao investir em produções desse gênero.

"É mais fácil você comprar um filme ou investir em um programa de entrevista, onde você só paga o apresentador", afirmou Carlos Alberto, conhecido carinhosamente como Seu Carlos pelos colegas. Para ele, a continuidade de sua atração depende diretamente da oportunidade dada a novos talentos e da vontade dos executivos da emissora.

O artista destacou ainda os desafios financeiros: "Colocar um programa no ar exige muito dinheiro. E com a situação atual, desde a pandemia, é muito mais barato as pessoas investirem em um comercialzinho que só vai sair na internet". Ele não poupou críticas, acrescentando: "É uma guerra desleal até".

A separação entre TV e internet e o futuro do humor

Para Seu Carlos, que comanda a atração de humor mais antiga ainda no ar, a televisão e a internet são mundos completamente separados, apesar de ele mesmo ter explorado o universo digital nos últimos anos, com um podcast e lives semanais tomando café da manhã ao lado de sua esposa, Renata Domingues.

"Não conheço ninguém que fez sucesso na internet e também fez sucesso na televisão", declarou o humorista. No entanto, ele reconhece que muitos nomes que passaram por seu programa, como Matheus Ceará e Maurício Manfrini, o Paulinho Gogó, conseguiram colher os frutos de seus personagens tanto no mundo virtual quanto nos palcos.

Este comentário surge em um momento de transformação no SBT, que recentemente cancelou o programa Sabadou com Virginia, com a influenciadora Virginia Fonseca, após dois anos no ar. A emissora agora aposta em Luis Ricardo para reviver o programa de auditório Viva a Noite.

Mudanças na grade e o espírito familiar da atração

Paralelamente, as alterações na programação do SBT também afetarão, a partir desta quinta-feira (5), o horário de A Praça É Nossa, que passará a começar mais cedo, às 22h30, após o Programa do Ratinho. "Essa mudança foi um presente", comemorou Carlos Alberto, que espera melhorias na audiência, pensando especialmente no público que acorda cedo e não pode ficar até altas horas da noite com a TV ligada.

A Praça É Nossa, assim como grande parte da programação do SBT, carrega um espírito profundamente familiar. Hoje, a atração é mais associada a Carlos Alberto do que a seu pai, Manuel de Nóbrega, que criou e comandou a Praça da Alegria entre as décadas de 1950 e 1970, desde os primórdios na TV Paulista até seu fim na mesma casa, já transformada em TV Globo.

O legado e o futuro do programa

Carlos Alberto de Nóbrega revelou que, no futuro, seu filho Marcelo, diretor do programa há mais de 20 anos, é o único que poderá dar continuidade à atração quando ele não puder mais tocá-la como faz atualmente. Isso inclui escrever os quadros à mão, gravar com uma dezena de comediantes e editar pessoalmente todas as edições.

"Eu não quero morrer na cama. Quero morrer trabalhando. Se Deus me der a graça, ele que vai resolver [o futuro], se a 'Praça' vai existir. A gente não sabe o dia de amanhã, tudo muda", refletiu o humorista, demonstrando sua paixão pelo trabalho e sua incerteza sobre o que o amanhã reserva para este ícone da televisão brasileira.