Heated Rivalry chega ao Brasil, mas futuro de séries LGBTQIA+ é incerto
Série LGBTQIA+ chega ao Brasil em meio a cancelamentos

A chegada de uma nova série ao catálogo de um serviço de streaming costuma ser motivo de celebração para os fãs. No entanto, quando o tema é representatividade LGBTQIA+, a euforia inicial muitas vezes dá lugar à apreensão. É o caso de "Heated Rivalry", produção que estreia no Brasil pela HBO Max em fevereiro de 2026, mas que já enfrenta um cenário de incerteza antes mesmo de sua estreia nacional.

Um romance no gelo em meio a uma onda de cancelamentos

Baseada nos livros Game Changers, da autora Rachel Reid, a série narra a história de dois atletas de hóquei que se apaixonam e precisam manter seu romance em segredo. O sucesso internacional entre o público jovem, especialmente nos Estados Unidos e Europa, não é garantia de longevidade. A história recente do streaming está repleta de exemplos de produções com temática LGBTQIA+ que, apesar de conquistarem seu público, foram "esquecidas" após uma única temporada.

Essa tendência de cancelamentos prematuros levanta questionamentos sobre o compromisso real das plataformas com a diversidade e sobre a pressão de uma onda conservadora que influencia decisões corporativas. A justificativa costuma ser a baixa audiência ou os custos elevados, mas produtores e fãs frequentemente apontam para a falta de promoção adequada ou para o preconceito velado.

O cemitério das séries: uma lista triste de produções interrompidas

O caminho que "Heated Rivalry" pretende percorrer já foi trilhado — e abruptamente interrompido — por diversas outras produções. Confira alguns casos emblemáticos:

"Primeira Morte" (2022): A série que misturava romance lésbico e vampiros alcançou um feito notável: ficou em terceiro lugar no ranking das mais assistidas da Netflix em sua primeira semana. Mesmo com esse desempenho, não foi renovada. A produtora Felicia D. Henderson culpou a plataforma pela falta de promoção.

"Boots" (2025): Inspirada no livro de memórias The Pink Marine, de Greg Cope White, a série seguia um jovem gay que se alista nos Fuzileiros Navais dos EUA. Aclamada pela crítica e pelo público LGBTQIA+, sofreu ataques diretos do governo americano. A secretária de imprensa do Departamento de Defesa, Kingsley Wilson, classificou o programa como "um lixo woke". O cancelamento pela Netflix veio logo em seguida, sem explicações formais.

"Sense8" (2015): Criada pelas irmãs Wachowski, a série inovadora, que incluía diversos personagens e casais LGBTQIA+ em seu elenco central, construiu uma legião de fãs fiéis. O alto custo de produção, no entanto, falou mais alto, resultando no cancelamento após duas temporadas, apesar de uma campanha massiva de fãs.

"Everything Sucks!" (2018): Com foco na jornada de uma adolescente lésbica no ensino médio, a série teve repercussão positiva, mas foi cancelada. A justificativa da então vice-presidente de conteúdo original da Netflix, Cindy Holland, foi de que era improvável atrair público para uma segunda temporada.

"Uncoupled" (2022): Estrelada por Neil Patrick Harris, a comédia sobre um homem gay solteiro aos 40 anos foi cancelada tanto pela Netflix quanto pela Paramount+, alegando baixa audiência. Seu desenvolvimento para uma segunda temporada foi interrompido durante a greve de roteiristas de 2024.

Outras produções como "Olympo" (2025), sobre jovens atletas explorando sua sexualidade, e "High Fidelity" (2020), com uma protagonista bissexual, seguiram o mesmo destino, reforçando um padrão preocupante.

O futuro incerto e a pressão por representatividade

A estreia de "Heated Rivalry" no Brasil pela HBO Max é um momento importante para a visibilidade de histórias LGBTQIA+ no esporte, um ambiente tradicionalmente marcado por conservadorismo. No entanto, o histórico recente lança uma sombra sobre seu futuro.

A pergunta que fica é: as plataformas de streaming estão realmente dispostas a investir e a manter narrativas diversas em longo prazo, ou essas produções são tratadas como conteúdo descartável, sujeito a cortes sob a primeira pressão — seja ela econômica, política ou social? O sucesso ou fracasso da série pode se tornar mais um termômetro do compromisso da indústria do entretenimento com a diversidade em um momento de crescentes tensões culturais.

Enquanto isso, o público aguarda para ver se o romance no gelo de "Heated Rivalry" conseguirá derreter a resistência das grandes corporações e conquistar não apenas corações, mas também a tão desejada renovação.