Quilombo Tia Eva em Campo Grande é tombado pelo Iphan como patrimônio histórico nacional
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) oficializou nesta terça-feira (10) o tombamento da Comunidade Quilombola Tia Eva, localizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Este reconhecimento histórico transforma o território fundado em 1905 pela ex-escravizada Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, no primeiro quilombo urbano do Brasil a ser tombado pelo órgão federal.
História de resistência e fundação
Eva Maria de Jesus nasceu em Mineiros, Goiás, onde foi escravizada durante sua juventude. Após conquistar a alforria no final do século XIX, ela migrou com suas três filhas para a região que hoje corresponde a Campo Grande. Em 1905, adquiriu um terreno e estabeleceu uma comunidade que se tornaria um dos mais antigos quilombos urbanos do país.
Tia Eva era reconhecida por sua fé profunda e dedicação comunitária, atuando como parteira, benzedeira, curandeira e professora para os moradores da região. Devota de São Benedito, ela construiu em 1919 a primeira igreja da comunidade, que deu origem à atual Igreja de São Benedito, hoje um dos principais símbolos culturais do território.
Processo de tombamento e reconhecimento
O pedido de tombamento partiu da própria comunidade em 2024, iniciando um processo de aproximadamente dois anos onde técnicos do Iphan trabalharam diretamente com os moradores para identificar e registrar as referências culturais do território. Durante reunião do conselho do instituto no Rio de Janeiro, foi aprovada a inclusão do quilombo no livro do tombo específico para territórios quilombolas.
João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, destacou a importância simbólica deste reconhecimento: "A principal mudança é a presença do Estado brasileiro mais próximo da comunidade. O processo identifica as referências culturais e define ações de salvaguarda para que essas tradições continuem existindo dentro da comunidade e para as futuras gerações".
Comunidade atual e preservação cultural
Atualmente, cerca de 250 famílias descendentes de Tia Eva residem na comunidade localizada na Rua Eva Maria de Jesus, que homenageia a fundadora. O território mantém vivas tradições culturais e religiosas, destacando-se a Festa de São Benedito, realizada anualmente durante a lua cheia de maio com aproximadamente dez dias de duração.
Ronaldo Jeferson da Silva, presidente da Associação de Descendentes de Tia Eva, expressou a emoção dos moradores com o tombamento: "É uma luta de resistência de Tia Eva. Ela veio de Mineiros, em Goiás, buscando exatamente isso: um espaço seu, para dar continuidade à sua linhagem e à sua história. Com o tombamento agora, damos continuidade a esse legado e temos um território protegido pelo Iphan".
Patrimônio arquitetônico e restauração
A Igreja de São Benedito, construída originalmente em pau a pique por Tia Eva em 1919, já era tombada como patrimônio histórico municipal e estadual. Atualmente, o templo passa por obras de restauração que fazem parte de um amplo projeto de revitalização comunitária.
O projeto, com investimento superior a R$ 2,2 milhões, prevê a criação de um complexo comunitário que incluirá uma praça, um centro de atendimento à comunidade e a reforma do salão de eventos. Adanilton Faustino de Souza Júnior, gerente de projetos da Agesul, explicou a prioridade dada à restauração da igreja: "A gente deu prioridade para a igreja por conta da situação estrutural. Além disso, em novembro temos o centenário de Tia Eva, e a ideia é entregar o templo restaurado para as festividades".
Significado histórico e cultural
Para Raíssa Almeida Silva, arquiteta moradora da comunidade que participou do levantamento histórico junto ao Iphan, o tombamento representa uma conquista histórica: "É um reconhecimento que a gente recebe com muita gratidão. A comunidade está muito emocionada. Muitas pessoas de Campo Grande ainda não conhecem a história de Tia Eva, e agora essa história ganha visibilidade".
Com este reconhecimento federal, a Comunidade Quilombola Tia Eva passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro, fortalecendo a preservação de sua história de resistência, suas tradições religiosas e culturais, e garantindo a continuidade do legado de Eva Maria de Jesus para as futuras gerações.



