Jovem indígena transforma saberes ancestrais em fenômeno digital com mais de 200 mil seguidores
Um talentoso roraimense de apenas 22 anos está revolucionando a forma como a cultura indígena é apresentada nas plataformas digitais. Kállisson Wapichana, cujo nome artístico homenageia seu povo de origem, combina em seu currículo as formações em jornalismo e técnico em enfermagem com uma missão digital: compartilhar saberes tradicionais que aprendiu com sua avó materna ainda na infância.
Conteúdo autêntico gravado na comunidade atrai milhões de visualizações
Os vídeos produzidos por Kállisson são sempre filmados na comunidade Canauanim, localizada na Serra da Lua, no município do Cantá, região onde nasceu e onde sua família reside. Com trilha sonora de carimbó, os conteúdos mostram desde técnicas de depilação natural utilizando cinzas até o uso das folhas de caimbé - planta comum do lavrado roraimense - para recuperar o brilho de panelas.
"Quando a gente mesmo conta a nossa história, não é outra pessoa falando por nós. Sou eu mostrando a minha vivência, minha cultura", explica o jovem sobre sua abordagem autêntica.
Desde sua estreia no Instagram em 2022, Kállisson nunca enfrentou o chamado "flop" digital. Seu primeiro post alcançou impressionantes 10 mil visualizações, e atualmente seu perfil acumula mais de 32 milhões de visualizações totais, além de 2,3 milhões de curtidas no TikTok.
Da medicina tradicional ao hino nacional em Wapichana
O repertório de conteúdos compartilhados pelo influenciador indígena é vasto e diversificado:
- Práticas da medicina tradicional indígena com banhos, chás e remédios caseiros
- Segredos de beleza natural, como o uso do jenipapo para manter o "cabelo pretinho indígena"
- Ensino de termos da língua Wapichana
- Produção artesanal de farinha e outros alimentos tradicionais
- Versão do hino nacional brasileiro na língua Wapichana
- Uso do tipiti - prensa de palha trançada - no tratamento de braços quebrados
"É algo sustentável. O que a gente tira da natureza volta pra natureza sem matar ela. Dá pra usar e depois devolver aquilo como adubo, por exemplo. É um ciclo", destaca Kállisson sobre a filosofia por trás dos cuidados tradicionais.
Combate ao preconceito através da visibilidade digital
Para o jovem indígena, o sucesso nas redes sociais representa muito mais do que números: é uma ferramenta poderosa de valorização cultural e enfrentamento ao racismo. "Criar conteúdo na internet é uma forma de enfrentar o racismo e o preconceito que existem contra os povos indígenas", afirma com convicção.
Kállisson percebe que o interesse do público - seja por curiosidade ou por resgate cultural - abre portas para mostrar que a cultura indígena é viva, atual e diversa. "Fico feliz com esse sucesso e entendo que traz uma grande responsabilidade porque nada disso é apenas sobre mim, mas sobre meu povo e minha história", reflete.
Jornalismo indígena e projeção internacional
Há quatro anos, Kállisson se mudou para Boa Vista para cursar Jornalismo na Universidade Federal de Roraima, graduação que iniciou em 2024. Ele percebeu que sua influência digital se conectava perfeitamente com a função jornalística e passou a profissionalizar seus conteúdos.
"Penso em me formar em Jornalismo e seguir nesse caminho: sendo um ativista e jornalista indígena. Depois, quero focar mais na área do audiovisual e do cinema", compartilha sobre seus planos futuros.
A visibilidade conquistada nas redes sociais abriu portas importantes para o jovem. No ano passado, ele participou da COP30 em Belém e integrou uma organização de comunicação indígena, experiências que considera transformadoras. "Viajar, mostrar o teu trabalho, falar do que tu gosta e mostrar de verdade como é a cultura indígena. A gente fica muito feliz", comemora.
Mesmo com o reconhecimento crescente, Kállisson mantém os pés no chão e a consciência de suas raízes: "Celebro, sim, mas sem esquecer de onde vim, de quem veio antes de mim e por quem falo", finaliza, demonstrando a maturidade que guia seu trabalho de valorização cultural.



