Para celebrar o Dia das Mães, o programa Terra da Gente deste sábado (9) exibe um episódio especial sobre mulheres que, de geração para geração, compartilham conhecimento, memórias e legado. Dona Jacinta, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas e Vicência Bretas Tahan têm muito em comum: além dos laços familiares, elas mantiveram viva, ao longo do tempo, a paixão pelas palavras.
O legado de Cora Coralina
Talvez o nome Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas não seja reconhecido de imediato. Mas é dela um dos pseudônimos mais marcantes da literatura brasileira: Cora Coralina. Mais do que escritora, Cora também foi mãe de seis filhos. Durante muitos anos, precisou guardar, literalmente, na gaveta o talento que carregava consigo para se dedicar à família. Com a ajuda de Vicência, única filha viva da poeta, o Terra da Gente revisita a trajetória dessa mulher que enfrentou dificuldades, rompeu barreiras e se tornou uma figura à frente de seu tempo.
O programa também mostra a forte ligação de Cora com a natureza e revela como trechos de seus poemas foram transformados em 60 placas espalhadas por uma trilha de 300 quilômetros em Goiás. Entre paisagens deslumbrantes, a equipe percorreu cenários que inspiraram os versos da escritora e voltou às origens de Aninha, apelido carinhoso que marcou a infância daquela que mais tarde se tornaria Cora Coralina.
As origens da poetisa
Antes da fama, Cora Coralina vendeu doces e escondeu poemas da família. Na Cidade de Goiás, às margens do Rio Vermelho, a equipe do Terra da Gente visitou a casa onde nasceu Aninha. O quintal logo chamou a atenção: árvores centenárias, caminhos cercados por rosas coloridas e uma fauna rica compõem o ambiente que a escritora descrevia como um verdadeiro universo. Foi nesse espaço cheio de vida que nasceram muitas das inspirações que futuramente apareceriam em seus poemas.
Ainda jovem, ela encarou dificuldades após a morte do pai. Por questões financeiras, foi morar no sítio do avô, onde manteve a proximidade com a terra, os aromas e os sabores do interior goiano. Enquanto isso, sua mãe, Jacinta, encontrou na cozinha uma forma de garantir o sustento da casa. Preparava doces com frutas colhidas no quintal e vendia temperos cultivados no jardim.
Anos depois, já adolescente, voltou para a antiga casa da família e começou a escrever. Em um de seus primeiros textos publicados no jornal local, adotou o nome Cora Coralina, expressão que remetia ao “coração vermelho” e às águas que passavam perto de onde morava, tão presentes em sua trajetória e em sua obra.
Mais tarde, contrariando a família, fugiu para se casar com um homem mais velho e divorciado. A mudança para São Paulo marcou um novo capítulo de sua vida. Mesmo sem o apoio do marido para continuar escrevendo, nunca abandonou a literatura: em meio à rotina da casa, seguia escrevendo e guardando seus textos discretamente. Após a morte do companheiro, descobriu na culinária, assim como sua mãe, uma forma de seguir em frente. Com as tradições aprendidas com ela, também passou a produzir doces e criar rosas para vender.
Foi somente muitos anos depois que Cora retornou à sua primeira casa, em Goiás. Aos 75 anos, publicou suas obras e retomou oficialmente a literatura. Um recomeço no lugar onde tudo havia começado: entre o Rio Vermelho, os quintais floridos e as memórias que eternizou em poesia.
Cora e as paisagens de Goiás
A equipe do Terra da Gente percorreu o “Caminho de Cora Coralina”, uma trilha que atravessa cidades históricas e povoados de Goiás. Para quem decide fazer o percurso a pé, são cerca de 13 dias de caminhada. O trajeto começa em Corumbá de Goiás e segue até a terra natal de Cora Coralina. Não há registros de que a poeta tenha conhecido o caminho, mas a paisagem parece ter saído de seus poemas. O Cerrado, as pedras, os rios e a biodiversidade presentes ao longo da trilha revelam a conexão da escritora com a natureza, tão marcante em sua obra.
Durante o percurso, placas com trechos de poesias acompanham os visitantes e servem como incentivo à caminhada. O programa também mostrou a riqueza natural do local, caracterizado por uma vegetação única e repleta de espécies endêmicas. A equipe explorou ainda o imponente Pico dos Pireneus, segundo ponto mais alto de Goiás, e o Salto Corumbá, considerada a maior cachoeira da região.
Conhecer o Cerrado goiano tão de perto ajuda a entender por que ele foi uma das maiores inspirações para a poesia de Cora Coralina. Mais do que cenário, a paisagem fazia parte da essência da escritora e segue motivando gerações até hoje.



