Poesia 'Celacanto' explora ancestralidade humana através de fóssil vivo como metáfora
Poesia 'Celacanto' usa fóssil vivo para explorar ancestralidade humana

Poesia 'Celacanto' mergulha nas profundezas da ancestralidade humana

O livro "Celacanto", do poeta, tradutor e psicanalista Thiago Ponce de Moraes, publicado pelo Círculo de Poemas, apresenta uma obra poética que utiliza um peixe ancestral como metáfora central para explorar as origens humanas, a memória e os vínculos familiares. A obra convida os leitores a uma jornada através do tempo e das gerações, desafiando certezas e percepções convencionais.

O fóssil vivo como imagem poética

O celacanto, um peixe que existe há centenas de milhões de anos – anterior até aos dinossauros – e ainda sobrevive nos oceanos atuais, serve como metáfora poderosa na poesia de Moraes. O autor explica que este "fóssil vivo" representa a própria natureza da poesia, com sua capacidade de atravessar eras e persistir através dos tempos.

"O celacanto, biológica e simbolicamente, ratifica, reitera a natureza da poesia, sua insistência através dos tempos", afirma o poeta. "Trata-se de um ser limítrofe, cuja existência é precaríssima e radicalmente marginal, à beira da extinção; um peixe que guarda mais familiaridade com animais de quatro patas que com a maioria dos seres do mar."

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Memória incrustada na carne e na linguagem

A obra explora como a ancestralidade está presente não apenas em nossa biologia – com resquícios de vírus e bactérias em nosso material genético – mas também na linguagem e nas relações familiares. Os poemas convidam a uma reflexão sobre como carregamos memórias que transcendem gerações, criando pontes entre passado e presente.

"O poema, como forma de arte que é, porta o arcaico", explica Moraes. "Isso quer dizer: passado e promessa convivem no presente do poema. Em cada página de um livro de poesia, ancestral e atual coexistem – e desse modo irrompem, simultaneamente, diante de quem lê."

Poesia como encontro geracional

O autor destaca o potencial da poesia para fortalecer vínculos familiares através da leitura compartilhada. "Ler poesia em voz alta, por exemplo, e conversar sobre de que maneira esses versos reverberam em cada um, pode ser um modo de estreitar os laços entre pais, filhos, avós", sugere Moraes.

Essa prática pode mobilizar memórias que, de outro modo, ficariam esquecidas no "fundo do mar" – mantendo a imagem do celacanto que percorre toda a obra. O poeta vê nesse encontro geracional em torno das palavras uma "profissão de afeto e de apreço às relações e à linguagem que as consubstancia".

Ruptura com a comunicação convencional

Moraes explica que sua poesia deliberadamente rompe com os pactos comunicativos habituais. "Há, em grande medida, uma ruptura do pacto comunicativo; uma ruptura, então, da ficção da linguagem – deliberadamente, é claro", afirma.

"O seu dizer, portanto, aquilo que resta no poema como materialidade escrita, escorrega e passa a enunciar sensações, formulações, significados distintos daqueles que a comunicação em geral engendra. O poema nos pede para ver com clareza; para ver outra vez; para ver mesmo dentro da escuridão abissal."

Diálogo entre poesia e psicanálise

Como psicanalista e poeta, Thiago Ponce de Moraes reflete sobre as convergências entre esses dois campos. "Poesia e psicanálise podem compartilhar um modo de estar no mundo, um ethos, um modo de acolhimento da diferença", observa.

Ambas as práticas lidam com "o que escapa, com o que desliza" na linguagem, criando espaços onde "os contratos prévios caem, em que a autoridade vacila". O autor vê na poesia, como na psicanálise, uma possibilidade de "saída de si por via de um movimento em direção ao outro".

Resistência ao tempo e recuperação da memória

A obra se apresenta como um espaço onde o tempo cronológico se dissolve. "Diante do poema, estamos sempre diante do tempo", diz o poeta, citando o historiador da arte Didi-Huberman. "Esse tempo diante do qual o poema nos coloca não é um tempo cronológico. É o tempo do eterno instante."

Assim como o celacanto persiste através das eras, a poesia em "Celacanto" busca criar um espaço onde memória e futuro coexistem, onde "outrora e agora" se encontram em versos que "atravessam, ultrapassam, resistem ao tempo".

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O livro se apresenta não apenas como uma coleção de poemas, mas como um convite a repensar nossa relação com a ancestralidade, a linguagem e os vínculos que nos constituem como seres humanos em constante diálogo com o passado e o futuro.