Mercado Sul de Taguatinga: 45 anos de resistência cultural e luta por patrimônio imaterial
Mercado Sul de Taguatinga: 45 anos de resistência cultural

Mercado Sul de Taguatinga: epicentro da cultura periférica do Distrito Federal

O Mercado Sul de Taguatinga se consolida como um dos mais significativos espaços de produção artística, cultura popular periférica e memória coletiva do Distrito Federal. Há mais de quatro décadas, artistas, moradores e iniciativas culturais de vanguarda sustentam e revitalizam continuamente este território histórico.

Uma história que antecede a própria capital federal

Construído e inaugurado em Taguatinga no final da década de 1950, antes mesmo da fundação de Brasília, o Mercado Sul foi um dos primeiros centros comerciais do DF. Desde os anos 1970, passou por um processo constante de revitalização liderado por moradores e movimentos culturais locais.

Em 2015, toda essa pulsão criativa se articulou na Ocupação Cultural Mercado Sul Vive, que transformou lojas abandonadas em novos espaços vivos de arte e cultura. A iniciativa reivindicou formalmente o reconhecimento do território como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal.

Fotolivro documenta legado cultural do "Beco da Cultura"

Um recorte desse rico legado foi documentado pelo Coletivo Retratação no fotolivro "Mercado Sul: Um Chão de Cores - Memórias do Beco da Cultura de Taguatinga (DF)", lançado em 21 de fevereiro durante a festa de 11 anos da ocupação do local.

A obra foi organizada pelo jornalista e fotógrafo Webert da Cruz e pela percussionista e antropóloga Ana Noronha. O livro reúne um acervo histórico com fotografias, pesquisas, textos e depoimentos que narram a trajetória cultural, as transformações e a atuação de diferentes gerações de artistas e moradores do Beco da Cultura, como também é conhecido o Mercado Sul.

"Com essa pesquisa, conseguimos ampliar o olhar sobre as complexidades desse lugar que encanta, mas que também enfrenta desafios diversos de infraestrutura, manutenção das atividades culturais e cuidado com as pessoas", destaca o fotógrafo Webert da Cruz.

Homenagem ao pioneiro Ivaldo Cavalcante

O livro também presta homenagem ao fotojornalista Ivaldo Cavalcante, cearense radicado em Taguatinga, que durante a década de 1970 realizou os primeiros registros fotográficos da cultura viva da comunidade e de seus arredores. Seu trabalho pioneiro documentou a essência cultural do local quando ainda estava em formação.

Caminho para o reconhecimento como patrimônio

A antropóloga Ana Noronha, que participou ativamente da construção do livro, destaca o forte poder de criação, de conhecimento e de fortalecimento de vínculos que o Mercado Sul possui. "Por ter essa importância social, comunitária, identitária, histórica, corre esse processo do Mercado Sul se tornar um patrimônio cultural do Distrito Federal, inclusive para ser salvaguardado, para receber essa atenção das políticas públicas necessárias nesse território", pontuou a pesquisadora.

O processo de patrimonialização teve início em 2015, com um primeiro pedido protocolado junto ao Governo do Distrito Federal. Em 2021, a campanha "Mercado Sul é patrimônio cultural material e imaterial do DF" mobilizou diversos agentes culturais, intensificando o encaminhamento da pauta dentro e fora da comunidade.

Atualmente, o processo está em discussão por meio de um grupo de trabalho do Conselho de Defesa ao Patrimônio Cultural (CONDEPAC-DF), instância participativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF.

Exposição "Chão de Cores" celebra diversidade cultural

Paralelamente ao lançamento do livro, o projeto Chão de Cores inaugurou uma exposição fotográfica com múltiplos olhares sobre as práticas culturais presentes no território, incluindo:

  • Teatro popular
  • Artes visuais
  • Cultura ballroom
  • Capoeira
  • Samba

"Este livro celebra as pessoas que estiveram aqui, valoriza quem permaneceu e segue movimentando atualmente e incentiva todos a construírem um futuro", comenta a antropóloga Ana Noronha.

A mostra traz registros de 13 artistas do movimento cultural do Mercado Sul:

  1. Angel Luís
  2. Davi Mello
  3. Diana Sofia
  4. Ester Cruz
  5. Ivaldo Cavalcante
  6. Matheus Alves
  7. Nara Oliveira
  8. Raissa de Oliveira
  9. Ramona Jucá
  10. Rick Paz
  11. Thiago S. Araújo
  12. Webert da Cruz
  13. Yuri Barbosa

A exposição permanece em cartaz até 27 de março, com entrada gratuita, no Espaço Okupa, localizado no próprio Mercado Sul. O horário de funcionamento é:

  • Quartas e quintas: das 9h às 12h
  • Terças e sábados: das 13h às 18h

Escolas, educadores e projetos pedagógicos podem solicitar mediação pedagógica coletiva, mediante agendamento prévio.