Quatro décadas de dedicação revelam o sertão real por trás da ficção de Guimarães Rosa
Quando tinha apenas 17 anos, o engenheiro Paulo Salles leu pela primeira vez Grande Sertão: Veredas. Hoje, aos 70 anos - mesma idade que a obra-prima de João Guimarães Rosa completa em 2026 - ele apresenta ao mundo o fruto de uma pesquisa meticulosa que durou mais de 40 anos: o mapeamento completo da geografia real por trás do universo ficcional do romance.
Da paixão literária ao projeto de vida
Paulo Salles transformou sua fascinação pelo clássico rosiano em uma missão científica. Mineiro de Uberlândia, ele cresceu conhecendo a região que serviria de pano de fundo para as andanças do jagunço Riobaldo. "Meu pai era veterinário do Ministério da Agricultura e nos levava em viagens pelo Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e sul de Goiás nos anos 1960", relembra o pesquisador. "Aquela era realmente a paisagem sertaneja descrita por Guimarães Rosa."
O trabalho, intitulado "Anatomia do Grande Sertão", representa um marco nos estudos literários brasileiros. Salles conseguiu localizar e catalogar mais de três quartos dos 437 topônimos mencionados na obra, desvendando que muitos nomes que pareciam pura invenção literária correspondem, na verdade, a lugares reais do sertão mineiro, goiano e baiano.
Metodologia que une tradição e tecnologia
A pesquisa combinou métodos tradicionais com ferramentas tecnológicas modernas:
- Coleta de mapas históricos: quase 200 mapas das décadas de 1980 e 1990, além de documentos mais antigos do Arquivo Público Mineiro e Biblioteca Nacional
- Viagens de campo: sete expedições específicas, cada uma com cerca de 12 dias, percorrendo aproximadamente 15 mil quilômetros
- Tecnologia de geolocalização: uso combinado de Google Earth e GPS profissional para obter coordenadas precisas
- Documentação fotográfica: registro visual dos locais identificados durante as viagens
"O sertão retratado no romance tem cerca de 500 mil quilômetros quadrados, uma área maior que a França", revela Salles, destacando a dimensão continental do território percorrido por Riobaldo em suas andanças.
Impacto internacional e desafios editoriais
O trabalho de Salles já ultrapassou fronteiras. A tradutora australiana Alison Entrekin, responsável pela versão inglesa "Vastlands: The Crossing", consultou o manuscrito do engenheiro para resolver centenas de dúvidas sobre a geografia do romance durante seus dez anos de trabalho de tradução.
Contudo, a publicação do material encontrou obstáculos. "Algumas editoras se interessaram, mas nenhuma tinha recursos para fazer o livro da maneira que eu queria", explica Salles. A solução foi lançar uma campanha de financiamento coletivo (www.catarse.me/anatomiadograndesertao) para viabilizar a edição completa, que inclui:
- Texto explicativo sobre a metodologia da pesquisa
- Oito mapas detalhados da trajetória cronológica de Riobaldo
- Glossário completo dos 437 topônimos em ordem alfabética, com coordenadas geográficas precisas
O sertão como metáfora do desconhecido humano
Para além do trabalho cartográfico, Salles desenvolveu uma interpretação filosófica do sertão rosiano. "Para mim, o sertão é a parte da natureza humana que desconhecemos", reflete. "É o desconhecido, a sombra, a perplexidade. É essa parte de cada um que tateamos ao longo da vida, tentando encontrar os caminhos que nos levem à felicidade."
A coincidência temporal - os 70 anos tanto do pesquisador quanto da obra - parece carregar significado especial. "É uma coincidência que prefiro não desperdiçar", comenta Salles, cujo projeto ganha ainda mais relevância no ano em que a Cia. das Letras prepara edição comemorativa, audiobook, biografia inédita do autor e uma série de eventos para celebrar o aniversário do romance.
A pesquisa de Paulo Salles não apenas ilumina aspectos geográficos do clássico brasileiro, mas também demonstra como a paixão literária pode se transformar em contribuição acadêmica significativa, unindo rigor científico à sensibilidade artística na interpretação de uma das obras fundamentais da literatura nacional.



