Exposição em São Luís reconta histórias de pretos e indígenas apagadas por expedição racista
A exposição "Costura de Cores Ancestrais - A RETOMADA", que integra o projeto artístico "Direito à Memória", estreia nesta quarta-feira (25) no Chão SLZ, localizado no Centro Histórico de São Luís, capital do Maranhão. Esta iniciativa cultural representa uma importante resposta artística ao apagamento histórico sofrido por populações pretas e indígenas na região amazônica.
Reescrevendo a história através da arte
O foco central da mostra é recontar as histórias de pessoas pretas e indígenas que foram registradas de forma violenta, desrespeitosa e brutal durante a expedição fotográfica racista denominada "Thayer", realizada na Amazônia no século XIX. A artista manauara Keila-Sankofa, idealizadora e diretora artística do projeto, explica que o trabalho surgiu a partir de um incômodo profundo com a forma como essas populações tiveram suas imagens públicas modificadas ao longo do tempo.
"Nosso trabalho é plantar e cultivar, recriar essas imagens e intervir na paisagem da cidade retratando esses indivíduos sociais por nome, cultura, origem, desejos e constituição familiar, tudo aquilo que o processo da história colonial propositalmente apagou", afirma a artista.
Uma resposta contracolonial
A exposição utiliza a transmutação da imagem como ferramenta para contar parte da história dessas pessoas, possibilitando, através da poética visual, a construção de identidades que foram sistematicamente negadas. A proposta emprega a revisitação histórica para criar novos imaginários e promover uma transversão crítica da história oficial, ainda marcada por teorias racistas científicas criadas para justificar supostas superioridades raciais.
Keila-Sankofa destaca que essas narrativas distorcidas ainda se perpetuam no imaginário social atual, tornando urgente o trabalho de ressignificação empreendido pela exposição. A mostra atua especificamente na humanização dos cativos retratados nas fotografias históricas, apresentando-os como seres livres, com suas humanidades plenamente reconhecidas, e transformando essas imagens em obras que evidenciam suas existências e importâncias sociais.
Ampliação do alcance geográfico
Esta é a primeira vez que a exposição é apresentada fora do Amazonas, representando uma significativa expansão do projeto. Antes de chegar ao Maranhão, a iniciativa já havia sido realizada em três importantes locais de Manaus:
- Largo de São Sebastião
- Trilha do Musa, no Angelim de 500 anos
- Salão do Museu da Amazônia (MUSA)
"Essa é uma satisfação enorme poder estar em terras maranhenses. Queremos ocupar a Amazônia inteira com a voz dessas pessoas contando suas próprias histórias", comemora Keila-Sankofa.
Programação completa e apoio institucional
A abertura oficial ocorre nesta quarta-feira (25), às 19h, no Chão SLZ, localizado na Rua do Giz, nº 167, no Centro Histórico de São Luís. Além da exposição principal, a programação inclui outras duas ações culturais significativas:
- Mesa de debate "Chão e Direito à Memória" - Quinta-feira (26), às 19h, com participação dos artistas Keila-Sankofa e Dinho Araújo
- Minicurso "Memória interrompida: arquivos coloniais e reparação histórica" - Dias 2 e 3 de abril, das 15h às 18h, ministrado por Patrícia Melo, responsável pela assessoria histórica da exposição
Todas as atividades são gratuitas e abertas ao público, reforçando o caráter democrático e inclusivo do projeto. A iniciativa é contemplada na PNAB 2024 – Fomento à Execução de Ações Culturais de Artes, e realizada com apoio do Governo do Estado do Amazonas, através do Conselho Estadual de Cultura e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, em parceria com o Governo Federal.
Projeto Direito à Memória
Criado em 2019, o projeto "Direito à Memória" propõe, através da arte em diálogo com a história, o enfrentamento direto dos processos sistemáticos de apagamento que marcaram a experiência das populações negras e indígenas no território amazônico. A iniciativa busca ampliar criticamente o olhar sobre as referências negativas historicamente atribuídas a esses grupos, funcionando como uma escrita poética de humanização da memória de vidas pretas e indígenas.
O projeto é descrito pelos organizadores como um "cavamento histórico" que une pesquisa artística rigorosa e ação contracolonial efetiva, criando espaços de reflexão e transformação social através das linguagens artísticas.



