Estudo revela que prática de escurecer dentes no Vietnã é milenar
Escurecimento de dentes no Vietnã tem 2.000 anos, diz estudo

Prática de escurecimento dental no Vietnã é muito mais antiga do que se pensava

Um estudo arqueológico publicado em janeiro de 2026 na revista Archaeological and Anthropological Sciences revelou que a tradição de dentes pretos brilhantes, considerada um alto padrão de beleza em partes do Vietnã, é significativamente mais antiga do que se imaginava. A pesquisa descobriu evidências químicas de que as pessoas escureciam permanentemente os dentes há aproximadamente 2.000 anos, muito antes dos registros históricos do final do século 19.

Análise química revela técnica milenar

O estudo focou em restos humanos descobertos em escavações no sítio arqueológico Dong Xa, datados da Idade do Ferro, entre 550 a.C. e 50 d.C. A equipe de pesquisa utilizou métodos microscópicos e químicos avançados para examinar cuidadosamente o esmalte de vários crânios encontrados no local.

A maior parte do conteúdo mineral correspondia à composição normal dos dentes, incluindo cálcio e fósforo, mas o que chamou a atenção dos pesquisadores foi a presença repetida e significativa de ferro e enxofre nas camadas externas do esmalte dental.

As descobertas sugerem que a técnica de escurecimento dependia fundamentalmente de sais de ferro, que eram provavelmente misturados com materiais vegetais ricos em taninos para criar uma superfície preta profunda e brilhante que alterava permanentemente a aparência dos dentes.

Processo complexo e duradouro

Os pesquisadores explicam que um método moderno similar de escurecimento envolve a combinação de uma substância à base de ferro com material vegetal rico em taninos, como as nozes de bétele, muito populares na Ásia. O hábito de mascar essas nozes é milenar entre povos do Pacífico e do Sudeste Asiático, e o uso prolongado pode manchar os dentes e gengivas de vermelho ou marrom-avermelhado.

No entanto, quando os ácidos tânicos e os sais de ferro são combinados e expostos ao ar, eles criam uma cor preta intensa. Os arqueólogos suspeitam que o processo antigo provavelmente levava vários dias ou até semanas de aplicação contínua para alcançar o resultado desejado.

Uma vez concluído o tratamento, os dentes permaneciam pretos por toda a vida do indivíduo, com retoques necessários a cada poucos anos para manter o brilho característico e a coloração escura.

Conexão com mudanças sociais e tecnológicas

A prática coincide com transformações mais amplas ocorridas no norte do Vietnã há cerca de 2.500 a 2.000 anos. Nesse período, o trabalho com ferro se tornou difundido na região, as redes de troca com o sul da China se expandiram consideravelmente e as estruturas sociais ficaram mais complexas e hierarquizadas.

"O escurecimento de dentes provavelmente se tornou difundido na Idade do Ferro, quando utensílios de ferro se tornaram mais acessíveis para produzir a pasta de tingimento preta", escreveram os arqueólogos no estudo, conectando o desenvolvimento tecnológico com a popularização da prática estética.

Continuidade cultural através dos séculos

Registros históricos chineses antigos, datados entre 25 d.C. e 220 d.C., já descreviam que populações de comunidades no que hoje é o território vietnamita escureciam os dentes como um traço cultural distintivo. Textos posteriores apontam o costume como um marcador claro de identidade regional e cultural.

Achados arqueológicos de séculos mais recentes também incluem sepulturas com dentes escurecidos, demonstrando a persistência da tradição ao longo do tempo. Conforme destacado pelo jornal Times of India, "a nova evidência química preenche a lacuna entre textos históricos e restos materiais, sugerindo uma continuidade impressionante da prática desde a Idade do Ferro".

Yue Zhang, arqueóloga da Universidade Nacional da Austrália e autora principal do estudo, explicou à Live Science: "A prática ainda é observada hoje, não só no Vietnã, mas também em partes mais amplas do Sudeste Asiático", destacando como tradições culturais podem persistir por milênios, adaptando-se às mudanças sociais enquanto mantêm sua essência simbólica e estética.