Emergência Radioativa: a história real por trás da família retratada na série da Netflix
Emergência Radioativa: a família real por trás da série

Emergência Radioativa: a história real por trás da família retratada na série da Netflix

Aos 74 anos, Lourdes das Neves Ferreira enfrentou a tristeza ao assistir aos cinco episódios da minissérie Emergência Radioativa, lançada pela Netflix. A trama que retrata o acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987, ficcionaliza o nome e parte da trajetória das pessoas que mais tiveram contato com o material radioativo, incluindo uma família inteira da qual Lourdes faz parte.

Na série, ela ganhou o nome de Catarina e foi representada pela atriz Marina Merlino, mãe de Celeste — personagem inspirada em Leide das Neves Ferreira, menina de 6 anos que morreu contaminada pela substância e se tornou símbolo da tragédia. "Qualquer coisa sobre o acidente me deixa triste, não tem como não ficar. Mas é importante que relembrem tudo aquilo, para não acontecer de novo", disse Lourdes em entrevista.

O real e a ficção na história de Catarina/Lourdes

Segundo Lourdes, uma das razões que a fez assistir à minissérie foi poder ver, ao menos de forma ficcionalizada, como o marido e os filhos foram tratados, já que ficaram separados dela durante o tratamento. Assim como mostra a série, Lourdes teve pouco contato com o pó do Césio-137 e não estava contaminada. Porém, ao contrário da trama de Catarina, Lourdes não foi liberada para o convívio social.

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"Eu fiquei o tempo todo isolada. Foram três dias no estádio, depois nos levaram para o prédio da Febem, onde éramos acompanhados por médicos. Fiquei três meses lá", conta. Lourdes revela ainda que ficou boa parte do tempo dopada por remédios. "Acho que me davam remédio porque sabiam que as notícias que iam chegar seriam ruins."

O que aconteceu com o marido e os filhos de Catarina/Lourdes?

Leide das Neves Ferreira, representada na série por Celeste (Mariana da Silva), morreu no dia 23 de outubro de 1987 no Hospital Naval do Rio de Janeiro. Como mostra Emergência Radioativa, o pai dela, Ivo, chamado na série de João (Alan Rocha), também estava no Rio, enquanto o filho adolescente do casal, Lucimar, papel de Enzo Ignácio, era tratado em Goiânia.

Lourdes conta que, apesar de ambos se recuperarem, sofreram por muitos anos de depressão. "Meu marido voltou a fumar, fumava de duas a três caixas de cigarro por dia. Ele faleceu de enfisema pulmonar em 2003." Lucimar, hoje com 52 anos, ainda faz acompanhamento médico, tem problema nos dois pulmões e, em 2001, sofreu três paradas cardíacas. "Quase perdi ele também, a gente cuida o tempo todo."

A história de Antônia e Evenildo – Maria Gabriela e Devair

Interpretados por Bukassa e Ana Costa, os personagens foram inspirados em Devair e Maria Gabriela Ferreira, dono do ferro-velho que recebeu o equipamento radioativo e sua esposa. Maria Gabriela morreu na manhã do dia 23, horas antes de Leide. Já Devair, que era irmão de Ivo, também desenvolveu um quadro grave de depressão e alcoolismo, morrendo em 1994 de cirrose hepática.

Quantas pessoas de fato morreram no acidente com Césio-137?

O número oficial soma quatro óbitos – além de Maria Gabriela e Leide, morreram os dois funcionários do ferro-velho, Israel Batista dos Santos, aos 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18. A Associação das Vítimas do Césio-137 estima que o número de mortes relacionados ao acidente nos anos seguintes passe de 60, causados especialmente por problemas pulmonares e câncer, além de amputações.

Indenizações e pensões vitalícias

As famílias que perderam suas casas, como Lourdes e Ivo, ganharam um novo imóvel do governo do estado. Uma pensão vitalícia é dada mensalmente aos afetados – no total, 1530 pessoas recebem o valor hoje em dia, que acaba de passar de 954 reais para um salário mínimo.

Uma frustração das vítimas do acidente com a série da Netflix é que nenhum deles foi contactado para narrar suas experiências pessoais. Mesmo assim, o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Marcelo Santos Neves, 60 anos, vê a repercussão como positiva. "Estávamos lutado por um reajuste da nossa pensão e de mais acesso a remédios de alto custo", conta ele, que foi contaminado quando trabalhou como cozinheiro para os contaminados no estádio de futebol.

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Quando pensa em tudo o que passou e como se mantém firme, dona Lourdes ressalta: "eu olho para a foto da Leide, o sorrisão dela me deixa feliz", conta, mostrando a força que a memória da filha ainda lhe proporciona.