A cinebiografia Dark Horse (traduzido como Azarão) já é considerada o filme mais polêmico de 2026 antes mesmo de sua estreia, e dificilmente perderá esse posto. O roteiro, ao qual a reportagem teve acesso, retrata o atentado a faca sofrido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, sua recuperação e outros eventos que influenciaram a eleição de 2020. A trama, escrita pelos americanos Mark e Cyrus Nowrasteh — conhecidos por obras esotéricas como O Tesouro de Sarah (2025) e O Jovem Messias (2016) —, cria personagens que aludem a figuras reais como a senadora Damares Alves e o ex-ministro Gilson Machado, além de citar nominalmente o presidente Lula e criticar a esquerda brasileira em várias cenas.
Encontro com médico gay
A única interação entre Bolsonaro e um integrante da comunidade LGBT+ ocorre quando ele se recupera no hospital após a facada. O ex-presidente observa os equipamentos ao redor e o médico que o atende. Percebendo o olhar do paciente, o médico diz: “Sim, se você está se perguntando, eu sou gay”. O roteiro indica que Bolsonaro reage com uma expressão de obviedade e pergunta: “Tenho seu voto?” O profissional responde de forma direta: “Acho que não”. Antes, durante a cirurgia, os pensamentos de Bolsonaro são retratados em narração em off. Paranoico, ele se questiona: “O médico disse tesoura? Já não me cortaram o suficiente? E o que estão arrancando? Vão colocar de volta no lugar? E se essas pessoas forem todas esquerdistas? Adoradores de Lula?” No fim da trama, porém, ambos apertam as mãos. O médico, chamado Tavares, afirma que garantirá que colegas de São Paulo tratem bem de Bolsonaro.
Entrevista fictícia
O único outro momento que aborda as queixas de homofobia contra Bolsonaro ocorre durante uma entrevista em que ele diz enxergar o povo brasileiro como sua família. “Por que tudo volta aos homossexuais? Você deveria me perguntar sobre como quero mudar o país, mas pergunta sobre os homossexuais”, afirma ele. A jornalista fictícia questiona seu uso de xingamentos homofóbicos, ao que ele justifica dizendo que vive ao lado de “pessoas reais” que usam tal linguagem e que carece do mesmo “refino” da mulher. Ela menciona um episódio em que um homem gay sentou-se no colo de Bolsonaro e arrancou risadas do político. O ex-presidente responde: “Ri porque foi engraçado. Sou uma pessoa real, sou rude, falo palavrão e gargalho, então me façam presidente”. A plateia fictícia o aplaude fervorosamente. Na vida real, o jornalista gay Felipeh Campos sentou-se no colo de Bolsonaro em 2011 durante o programa Quem Convence Ganha Mais, do SBT, para testar a homofobia do político. Ele não riu, como no filme, mas não demonstrou reação, o que fez o jovem dizer que “domou a fera”. Campos teve uma boa impressão de Bolsonaro na ocasião e afirmou: “Se ele fosse homofóbico, iria me empurrar”.



