O mundo das histórias em quadrinhos e do humor corporativo perdeu uma de suas figuras mais icônicas e controversas. Scott Adams, o criador da mundialmente famosa tirinha Dilbert, faleceu aos 68 anos. A confirmação veio através de sua primeira ex-esposa, Shelly Miles, que informou que o cartunista estava sob cuidados paliativos em sua casa no norte da Califórnia, lutando contra um câncer de próstata que havia se espalhado para os ossos.
Do escritório ao estrelato global
A genialidade de Adams nasceu da frustração do cotidiano. Ele transformou sua própria experiência como funcionário da empresa de telecomunicações Pacific Bell em um fenômeno cultural. Através do personagem Dilbert, um engenheiro cercado por gerentes incompetentes e uma burocracia absurda, ele capturou a alma do trabalhador de escritório de forma hilária e precisa.
O sucesso foi estratosférico. Em seu auge, a tirinha Dilbert era publicada em 2.000 jornais ao redor do planeta, alcançando 70 países e sendo traduzida para 25 idiomas. Em 1997, o impacto foi tão grande que o próprio personagem Dilbert entrou para a lista da revista Time das pessoas mais influentes dos Estados Unidos, um feito inédito para uma criação fictícia. No mesmo ano, Adams recebeu o cobiçado Reuben Award, o maior prêmio para um cartunista.
Sua contribuição mais duradoura para a cultura corporativa foi o chamado "Princípio Dilbert". A teoria, de tom cínico, propunha que as empresas tendem a promover sistematicamente seus funcionários menos competentes para cargos de gestão, onde supostamente causariam menos danos diretos.
A queda e o "cancelamento"
Entretanto, o legado de Scott Adams tomou um rumo sombrio e polarizador em seus últimos anos. Leitores fiéis começaram a notar uma mudança gradual no tom de suas tiras, que passaram a incorporar visões cada vez mais misóginas e controversas sobre questões sociais.
O ponto de ruptura definitivo com a mídia tradicional ocorreu em 2023. Durante uma transmissão ao vivo, Adams fez comentários amplamente considerados racistas, referindo-se a pessoas negras como um "grupo de ódio". A repercussão foi imediata e devastadora para sua carreira mainstream.
Sua distribuidora e centenas de jornais cortaram imediatamente a publicação de Dilbert. Projetos de livros foram cancelados, e o cartunista foi efetivamente "cancelado" pelo establishment midiático que antes o celebrava.
Legado complexo e vida após a polêmica
Apesar do rompimento com os canais convencionais, Adams não desapareceu. Ele migrou para plataformas alternativas, mantendo-se ativo. Lançou uma nova versão de seu trabalho, chamada Dilbert Reborn, na plataforma de vídeo Rumble, e continuou com seu podcast, Real Coffee.
Nesses espaços, ele manteve o apoio de uma base conservadora e de figuras como o ex-presidente Donald Trump. Adams sempre defendeu que não havia sido cancelado, mas sim vítima de uma grande mídia tendenciosa, afirmando em certa ocasião que nunca se sentira tão popular.
Scott Adams deixa para trás uma trajetória profundamente complexa. Ele partiu do pináculo do reconhecimento artístico e do sucesso comercial para um final de vida marcado não apenas pela batalha contra uma doença debilitante, mas também pelo isolamento midiático, consequência direta de suas posições políticas e sociais radicais. Sua obra, Dilbert, permanece como um marco na sátira corporativa, mas seu criador será lembrado por um legado dividido entre o gênio humorístico e a controvérsia amarga.