Artista de Sorocaba transforma reflexos do cotidiano em investigação sobre intimidade
Falta de contato humano, confinamento, cômodos vazios e a sensação de não pertencer àquele local. O isolamento causado pela pandemia da Covid-19 deixou marcas intensas em todos nós, mas o que fazer quando os cômodos das nossas casas perdem a sensação de intimidade? Para a artista e professora da Universidade de Sorocaba (Uniso) Laura Mello de Mattos, a arte foi essencial para encontrar o reflexo de si mesma e transformar essa experiência em pinturas realistas que exploram profundamente a relação entre privacidade, repetição e autopercepção.
Reflexões como forma de encontro consigo mesma
No Dia Mundial da Arte, celebrado nesta quarta-feira (15), a artista apresenta por meio da exposição intitulada "Reflexões" uma série de trabalhos que discute o conceito de reflexão a partir da própria imagem. Os quadros trazem azulejos de banheiros refletindo a figura da artista, representando um momento de intimidade que, durante a pandemia, só poderia ser alcançado dentro desse espaço doméstico.
"Sou pintora figurativa e desenvolvo minha técnica há pelo menos 20 anos", explica Laura. "Durante a pandemia, quando ficamos confinados nos espaços domésticos, a convivência familiar se intensificou e passamos a circular sempre pelos mesmos ambientes. O banheiro, naquele momento, era como uma cápsula de proteção e de encontro consigo mesma".
A partir dessa perspectiva, Laura passou a observar elementos cotidianos do banheiro — como registros, válvulas e superfícies metálicas — e transformá-los em tema central de suas obras. Elementos como o registro da ducha higiênica, o seletor de temperatura da torneira e a válvula de descarga deixaram de ser apenas funcionais e se tornaram dispositivos de reflexão, tanto no sentido literal quanto simbólico.
Processo criativo e expansão temática
Por ser produzida com tinta a óleo, cada obra de arte leva cerca de quatro meses para ficar pronta, um processo que possibilita à artista pintar mais de uma obra simultaneamente. "Comecei a produzir uma série de pinturas relacionadas a esses objetos do cotidiano", afirma Laura. "Eu via nesses reflexos, muitas vezes captados com o celular, uma forma de transmitir a privacidade para os meios digitais. Sempre há uma figura refletida nessas superfícies, o que acaba criando um compartilhamento de intimidades".
Com o desenvolvimento do processo criativo, a artista ampliou o olhar para além dos banheiros e passou a explorar outros espaços de convivência íntima:
- Mesas como locais de convivência íntima
- Talheres e superfícies refletoras incorporados às obras
- Exploração de relações pessoais mediadas por reflexos e fragmentos
Em 2025, durante uma residência artística em Lisboa, Portugal, Laura aprofundou ainda mais sua pesquisa ao buscar referências ligadas à própria ancestralidade. "Fui para Lisboa com a intenção de pesquisar as mesas portuguesas, por conta da minha origem, mas o ambiente acabou me mostrando outros caminhos", explica a artista.
Trajetória consolidada e reconhecimento nacional
Com trajetória consolidada, Laura Mello de Mattos expõe trabalhos desde 2006, com passagens por galerias do Brasil e do exterior. Ao longo dos anos, a artista participou de exposições em espaços como Nova York e São Paulo, além de integrar importantes eventos de arte contemporânea.
O reconhecimento aumentou significativamente a partir de 2021, quando o recebimento de um prêmio impulsionou novas exposições individuais e coletivas. "Exponho desde 2006 e já tive trabalhos apresentados em Nova York, além de espaços culturais importantes em São Paulo", afirma Laura. "Minha produção se intensificou a partir de 2021, quando fui contemplada por um prêmio que resultou em uma exposição individual no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba".
Atualmente, a artista mantém exposições simultâneas em São Paulo e Sorocaba, consolidando a série "Reflexões" como um trabalho que atravessa o íntimo e o coletivo ao transformar cenas cotidianas em investigações profundas sobre presença, imagem e identidade. A exposição representa não apenas uma resposta artística ao isolamento pandêmico, mas uma contínua exploração das múltiplas camadas da experiência humana através do olhar atento aos reflexos que nos cercam no dia a dia.



