Grafiteiro transforma muros de Rio Preto com arte sensorial que provoca reflexões urbanas
Arte sensorial de grafiteiro transforma muros de Rio Preto

Grafiteiro transforma muros de Rio Preto com arte sensorial que provoca reflexões urbanas

Um artista visual de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, está revolucionando a paisagem urbana através de uma abordagem inovadora do grafite que prioriza a experiência sensorial e emocional dos moradores. Danilo de Souza, mais conhecido pelo pseudônimo artístico Lino.96, desenvolveu o projeto "Afagos para Rio Preto", que se afasta das representações tradicionais com personagens ou letras estilizadas para colocar as cores como protagonistas absolutas.

Arte que transcende o visual

Nesta sexta-feira, 27 de setembro, data que marca o Dia Internacional do Grafite, o artista tem múltiplos motivos para celebrar. Seu projeto, que contou com a colaboração do também artista visual Juny kp!, reúne quatro obras distribuídas estrategicamente por diferentes bairros da cidade, cada uma oferecendo uma experiência sensorial distinta e cuidadosamente planejada.

Em entrevista exclusiva, Souza explicou que o objetivo central de sua iniciativa é provocar reflexões profundas na população. "Existem estudos científicos robustos que demonstram como as cores possuem o poder de despertar sentimentos positivos nas pessoas. Por essa razão, optei intencionalmente por trabalhar com formas abstratas", revela o grafiteiro.

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"A intenção primordial era remover essa imagem de cidade suja e substituí-la por algo mais simples, suave e alegre para o cotidiano das pessoas", complementa Lino.96, destacando que sua missão vai além da estética.

Revitalização de espaços públicos e promoção do pertencimento

A iniciativa busca explicitamente revitalizar espaços públicos negligenciados e promover um sentimento genuíno de pertencimento em bairros que tradicionalmente possuem menor acesso à produção cultural e artística. Lino conta que seu propósito duplo é incentivar o consumo democrático de arte e, através dos princípios da psicologia das cores, transformar positivamente a rotina urbana dos cidadãos.

"Meu desejo é oferecer arte de qualidade para quem está simplesmente passando pela rua, de forma completamente gratuita, que deixe a cidade visualmente mais bonita e emocionalmente mais alegre", afirma o artista. "A psicologia das cores detém esse poder transformador: uma pessoa parada no trânsito congestionado ou retornando exausta do trabalho pode ser surpreendida por uma dessas obras e recebê-la como um verdadeiro presente do dia".

O processo criativo e o impacto social

Durante as etapas de produção das obras, diversas pessoas interromperam sua caminhada para questionar sobre o projeto e elogiar calorosamente o trabalho meticuloso de Lino. A intervenção mais marcante, segundo o próprio artista, ocorreu durante a pintura de "Código de Barras" no Complexo Esportivo Eldorado.

"Enquanto eu aplicava as cores em 'Código de Barras', uma criança se aproximou e ficou visivelmente impressionada com o trabalho. Era possível perceber nos olhos dela um brilho de interesse genuíno. Ela parou, observou atentamente, leu as informações, realmente chamou sua atenção. Naquele instante específico, eu senti que todo o esforço já havia valido completamente a pena", emociona-se o grafiteiro ao recordar o episódio.

As quatro intervenções sensoriais

As obras estão estrategicamente espalhadas por diversos bairros de São José do Rio Preto. A seleção criteriosa dos locais reflete um compromisso com o incentivo ao acesso democrático a conteúdos artísticos e ao consumo cultural diversificado. Em cada intervenção, Lino e Juny kp! buscaram proporcionar uma experiência sensorial única, explorando minuciosamente a psicodinâmica das cores, suas tensões visuais, harmonias cromáticas e impactos emocionais no tecido urbano cotidiano.

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  1. "Código de Barras" (LGBTQIAPN+): Esta pintura transforma inteligentemente o sistema visual de identificação comercial em uma metáfora poderosa sobre identidade e diversidade humana. As linhas tradicionais do código de barras são reinterpretadas artisticamente com as cores vibrantes da bandeira LGBTQIAPN+, propondo uma reflexão profunda sobre singularidade, representatividade social e afeto.
  2. "Lápis de Cor": Nesta obra, o artista buscou resgatar memórias afetivas da infância. A pintura, realizada em um terreno vazio da Rua Nelson Freitas, sobrepõe-se a uma arte antiga e desgastada, associando-se habilmente à nostalgia das caixas de lápis de cor e estabelecendo um diálogo criativo com técnicas de pintura utilizadas por artistas brasileiros consagrados como Mauricio de Sousa.
  3. "Quadrados Ouro e Prata": Nesta intervenção reflexiva, Lino criou uma experiência visual utilizando quadrados dourados e prateados. A pintura, executada no CRAS do bairro Vila Toninho, foi concebida para que pessoas que buscam apoio social no local possam se observar, se cuidar e refletir, explorando poeticamente a interação entre luz, movimento e percepção humana.
  4. "Perspectiva CMYK": Esta obra utiliza as cores ciano, magenta, amarelo e preto — base fundamental dos sistemas gráficos de impressão — para criar faixas em perspectiva que produzem uma ilusão óptica de profundidade. A intervenção, localizada na Casa de Criar, estabelece uma ponte conceitual entre arte urbana contemporânea, design gráfico e produção editorial.

Novos horizontes artísticos

Lino finaliza compartilhando sua perspectiva visionária de expandir esse conceito transformador para outras ruas e como ele pode contribuir significativamente para a sociedade. O artista revela que já está desenvolvendo um novo projeto de intervenção social, que terá como foco central o retrato de mulheres cientistas e suas contribuições históricas frequentemente subestimadas para o progresso social.

"Eu mesmo tive meu primeiro contato significativo com a arte justamente nas ruas, vim de uma infância simples e gostaria profundamente de ter tido essa influência positiva mais cedo", reflete o grafiteiro. "Por essa razão, desejo mostrar para jovens e crianças que o grafite também é arte legítima, incentivando essas pessoas a se tornarem artistas e transformadoras de seus próprios espaços", finaliza Danilo de Souza, deixando um legado que ultrapassa os muros pintados.