Antologia 'Inesquecíveis' resgata quatro séculos de poesia feminina brasileira
Se não está fácil para os poetas hoje, imagine se você fosse mulher tentando publicar seus versos no patriarcal século XVIII. Pois no Brasil colônia havia damas costurando rimas e emendando sonetos, numa tradição antiga que, felizmente, as autoras brasileiras fizeram desabrochar ao lutar com a pena e o talento contra o preconceito e o machismo das letras.
Cedo ou tarde, elas furaram bolhas, cânones, movimentos… E chegaram às páginas encantando e provocando velhas e novas gerações. É esse passeio histórico pela produção de poetas brasileiras que podemos realizar com a antologia Inesquecíveis, das também poetas e pesquisadoras Ana Rüsche e Lubi Prates.
Um panorama histórico da poesia feminina
Publicada pela editora Bazar do Tempo, a obra reúne 30 escritoras – da setecentista Ângela do Amaral Rangel à nossa contemporânea Micheliny Verunschk. Dividido em quatro partes, do Brasil colônia à safra de autoras nascidas de 1940 a 1970, o livro traz um panorama de apresentações e contextualizações antes dos poemas selecionados por período.
Seus versos percorrem do louvor da pátria e da educação cristã até a quebra de tabus e fronteiras (da métrica, do corpo…), passando pelo luto e pela luta – dos negros contra os grilhões, das mulheres contra as opressões. Trajeto que revela, nas (entre)linhas, as causas, as dores e os sonhos abraçados pelas poetas.
Das precursoras às contemporâneas
Na leitura, conhecemos gente de nome obscuro, como as precursoras Ângela Rangel e Beatriz Brandão, revemos autoras hoje reverenciadas, como Pagu e Conceição Evaristo, e somos enredados nos versos de Eliane Potiguara e Micheliny Verunschk, premiada pernambucana que fecha com potência e brilho a obra.
De novo fortes para a luta, evocando Narcisa Amália, outra integrante da antologia recitada pelas organizadoras do volume, as poetas se sucedem fazendo história, antes tarde do que nunca. E legando a oportunidade de nós, leitoras e leitores, realizarmos, poema a poema, um "excelente exercício mental".
O tema unificador da antologia
Segundo Ana Rüsche, co-organizadora da obra, "o tema de fundo do livro é a longevidade dessa tradição, a da poesia feita por mulheres. O senso comum indicaria que nem existiria essa produção toda, mas, se formos pesquisar, é uma produção antiga e consistente, dentro das especificidades de cada momento histórico".
As organizadoras explicam ainda que, quando se aproximam do presente, a partir do século XX, preferiram escolher poetas cuja obra é menos referenciada em livros de história da literatura brasileira — como seria o caso das mais conhecidas Ana Cristina César, Adélia Prado, Cecília Meireles e Hilda Hilst.
O verso que sintetiza a obra
Questionadas sobre qual verso ou poema do livro sintetizaria a antologia, as organizadoras escolheram "E eis-me de novo forte para a luta", de Narcisa Amália. "É um verso que traduz esse persistente trabalho, que vem de longe e aponta para o futuro", afirmam.
Para as pesquisadoras, a poesia, por ser uma arte da contemplação do mundo e dos jogos de linguagem, pode contribuir com as velhas promessas de ano novo, como "ficar longe das redes" ou "se afastar do celular". Ler um poema por dia é um excelente exercício mental, recomendam, sugerindo que as escritoras resgatadas na antologia podem ajudar nesse processo de reconexão com a linguagem e com a história.
A antologia fecha com um convite: se esqueceram alguma poeta, "por favor, celebre esse nome. Inesquecíveis são todas as mulheres que produzem poesia e fazem nosso coração vibrar".
