Filme ‘A Sombra do Meu Pai’ une drama familiar e crise política na Nigéria dos anos 90
‘A Sombra do Meu Pai’: drama familiar e política na Nigéria

Filme ‘A Sombra do Meu Pai’ ecoa drama de ‘Ainda Estou Aqui’ na Nigéria

O cineasta Akinola Davies Jr. costura as dores de sua família às paisagens vibrantes do país e ao período político conturbado na década de 1990. Em 17 de novembro de 1993, um golpe militar anulou os resultados da primeira eleição presidencial da Nigéria em uma década, atrasando em seis anos a redemocratização do país. Para Akinola (Godwin Chiemerie Egbo) e Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 8 e 11 anos, respectivamente, outro cataclismo foi muito maior naquela data: o pai ausente (Sope Dirisu) surge após uma temporada de trabalho longe de casa. Diante de protestos dos filhos pela rapidez da visita, ele os leva consigo para a agitada capital, Lagos.

Uma jornada pela instabilidade política

O trajeto, afetado pela instabilidade política refletida na cidade, serve de fio condutor para A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow, Nigéria/Reino Unido/Irlanda, 2025), já em cartaz nos cinemas. O filme foi premiado no Festival de Cannes e no Bafta, o Oscar inglês, e vem encantando plateias pelo mundo. Em passagem recente pelo Brasil, onde participou de sessões especiais, o diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. apontou similaridades entre seu filme de estreia e os sucessos nacionais Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025).

“Contamos a história da geração dos nossos pais e como ela afetou a relação deles com a masculinidade”, disse em entrevista a VEJA. “O cinema gera empatia, para que enxerguemos os sacrifícios feitos sob circunstâncias extremas.” Como nos títulos brasileiros citados, A Sombra do Meu Pai vê na intersecção entre drama familiar e crise política um acelerador para a perda da inocência dos garotos, obrigados a se tornarem conscientes da nação onde vivem.

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Toques autobiográficos e a reconstrução do pai

Apesar de toques autobiográficos, o filme é uma forma que o diretor encontrou de viver a experiência paterna que não lhe foi permitida: Davies tinha apenas 1 ano e 8 meses quando perdeu o pai para uma crise epiléptica. Cresceu ouvindo relatos sobre ele e encontrou na ficção um meio de reconstruí-lo, observá-lo e imaginar as conversas que teriam. Por isso, o personagem e a Nigéria parecem um só, qualidade que o diretor bem resume: “O maior recurso de qualquer país é o recurso humano”.

A vibrante produção cinematográfica nigeriana

Lar de mais de 500 povos e dialetos, a Nigéria vem expondo essa pluralidade em sua modesta, mas vibrante, produção cinematográfica, mercado apelidado de Nollywood. Com o reforço do olhar de profissionais locais, os estereótipos são dissipados e o drama ganha beleza: a fotografia hipnotizante do filme de Davies Jr. realça os encantos do país — que ora é extraída de elementos contraditórios, como um dos milhares de navios encalhados em seu litoral. Entre familiares ou com a própria nação, não há escapatória dos laços invisíveis que nos cercam.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993.

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