Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho denunciam boicote a 'Marighella' no Brasil
Wagner Moura e Kleber Mendonça denunciam boicote a 'Marighella'

Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho denunciam boicote a 'Marighella' no Brasil

Os cineastas brasileiros Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho concederam uma entrevista ao renomado jornal britânico The Guardian, na qual abordaram questões polêmicas sobre a recepção de suas obras no país. Durante a conversa, ambos afirmaram de forma categórica que o filme "Marighella", dirigido por Wagner Moura, sofreu um boicote significativo no território nacional.

Sabotagem cínica e referência kafkiana

Kleber Mendonça Filho foi enfático ao descrever a situação: "Foi sabotado de forma cínica e não oficial, e Wagner nunca vai receber uma explicação. É aí que entra Kafka". A declaração faz uma clara referência à obra literária "O Processo", escrita por Franz Kafka em 1925, na qual o protagonista enfrenta um sistema burocrático opressor que o impede de compreender as acusações contra si.

Wagner Moura, por sua vez, expressou espanto ao relembrar os eventos: "Não dá para se defender, porque você não sabe exatamente o que aconteceu". O longa-metragem, que retrata a vida do guerrilheiro Carlos Marighella, assassinado durante a ditadura militar, teve seu lançamento na Europa em 2019, mas enfrentou um atraso de dois anos para chegar aos cinemas brasileiros.

Ataques políticos e acusações infundadas

Além do boicote ao filme, os artistas relataram estar sob intensa pressão política. Wagner Moura revelou: "Kleber e eu estamos sendo atacados no Brasil neste momento. Estão dizendo que o governo nos pagou milhões de dólares para apoiá-lo". Essas alegações, segundo ele, são completamente infundadas e refletem um clima de polarização e desinformação.

Kleber Mendonça Filho também explicou sua abordagem sobre a ditadura militar em "O Agente Secreto", filme no qual Wagner Moura interpreta um professor universitário perseguido por um empresário com conexões governamentais. O diretor destacou: "Eu poderia ter mostrado o personagem sendo levado à delegacia e recebendo choques elétricos na genitália a noite toda. Mas a ditadura se manifestou de muitas formas diferentes".

Pressão internacional e defesa da democracia

Wagner Moura ainda comentou sobre as pressões para silenciar suas críticas a figuras políticas internacionais, como o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O ator baiano afirmou: "Estou sendo muito incentivado a não falar nada. Mas vou continuar falando, né?". Em declarações à revista Variety, ele relacionou "O Agente Secreto" ao avanço do autoritarismo global, argumentando que as democracias vivem um momento frágil, marcado pela desinformação e pela ausência de limites.

O artista, que já recebeu indicação ao Oscar, ressaltou que muitos nos EUA não compreendem a realidade de viver sob uma ditadura, enfatizando a importância de manter o diálogo e a crítica em tempos de turbulência política. A entrevista reforça o papel dos cineastas como vozes ativas na defesa da liberdade de expressão e na reflexão sobre os desafios democráticos contemporâneos.