Recife se torna personagem em 'O Agente Secreto', filme que celebra cinema pernambucano
Recife é personagem em 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho

Recife se torna personagem em 'O Agente Secreto', filme que celebra cinema pernambucano

Ruas, prédios históricos, parques e praças do Recife ganham destaque como cenário de "O Agente Secreto", produção dirigida por Kleber Mendonça Filho e estrelada por Wagner Moura. Gravado em quase 50 pontos da capital pernambucana, o filme transforma a cidade em uma verdadeira vitrine, projetando para plateias de diferentes países a paixão pelo cinema feito em Pernambuco.

Cinema São Luiz: cenário e experiência única

Entre os cenários do longa está o Cinema São Luiz, um dos cinemas de rua mais icônicos do país, inaugurado em 1952 no Centro da cidade. O prédio histórico aparece em várias cenas do filme e hoje recebe sessões da própria produção, oferecendo uma experiência curiosa para o público, que assiste na tela a um espaço onde está sentado.

"O Agente Secreto" recebeu quatro indicações ao Oscar: melhor ator, melhor filme, melhor filme internacional e melhor elenco. O longa também fez história ao ganhar dois prêmios no Globo de Ouro deste ano e dois prêmios no Festival de Cannes de 2025.

No São Luiz, o cinema não apenas exibe o longa-metragem, mas também aparece dentro da narrativa, transformando o próprio espaço em parte da história. Quando o público entra na sala, muitos têm a sensação de se reconhecer na tela.

Tradição e memória no cinema de rua

O gestor do cinema, Gustavo Coimbra, conhece esse ritual desde criança. Ele lembra das idas ao São Luiz com a família, quando assistir a um filme era também participar de uma tradição. "Minha mãe tinha uma preocupação de a gente sair na hora certinha, tudo direitinho, para ver o ritual: as luzes apagando, os vitrais acendendo", conta.

Hoje, Gustavo está do outro lado da experiência, sendo ele quem acende os vitrais do cinema antes das sessões. "Hoje a gente está aqui, eu estou aqui trabalhando no cinema e eu fazer os vitrais acenderem, aquilo que eu vinha ver com minha mãe quando pequeno, isso é inexplicável, é gratificante demais", afirmou.

Impacto do filme no público local

O sucesso de "O Agente Secreto" tem levado novos visitantes ao cinema. Segundo funcionários do espaço, há pessoas que nunca tinham entrado no São Luiz e decidiram conhecer o local depois de assistir ao filme. "Tem gente, pessoas com certa idade já, que nunca tinha entrado aqui no São Luiz e está vindo por conta de 'O Agente Secreto'", diz Gustavo.

Quem também acompanha esse movimento é o projecionista João Bosco, um dos mais antigos do cinema. Ele afirma que percebeu uma mudança no público desde a estreia do longa. "O público já estava com aquilo na mente, que o cinema [de rua] estava afracando, mas quando chegou 'O Agente Secreto', lotou de novo", conta.

História do cinema pernambucano

A relação entre o Recife e o cinema não começou agora. Um dos primeiros filmes feitos na cidade foi "A Filha do Advogado", dirigido por Jota Soares há exatos 100 anos, em 1926. Nas décadas seguintes, outras produções também usaram histórias e cenários da região, como "Amarelo Manga" e "Cinema, Aspirinas e Urubus".

Pernambuco tem uma das cinematografias regionais mais antigas e consistentes do Brasil, marcada por diferentes ciclos de produção e por uma forte relação entre cinema, cidade e cultura local. O cinema chegou ao estado poucos meses depois das primeiras projeções públicas realizadas em Paris, consideradas o marco inicial da história da sétima arte.

O Recife como personagem e projeção internacional

Enquanto o público local reconhece lugares da cidade na tela, o filme também apresenta o Recife para espectadores de outros países. Em entrevista em Londres, durante a agenda internacional de divulgação do filme, Kleber Mendonça Filho falou sobre a importância de um país contar suas próprias histórias por meio do cinema.

"O cinema, claro, a televisão, as séries, é uma maneira muito forte e poderosa de contar histórias. E é essencial que um país, no nosso caso o Brasil, consiga se ver, se ouvir e ver histórias que você diga: isso aqui faz parte de quem somos", afirmou.

O ator Wagner Moura também destacou a importância dessa troca cultural. "Eu cresci vendo cinema americano. Então o meu entendimento do que os Estados Unidos são tem a ver com os filmes que eu vi, com os diretores americanos. É muito importante e tem sido muito bonito ver as pessoas falando do Brasil a partir desse filme", disse.

Novas gerações mantêm a tradição

Mais de um século depois das primeiras exibições de cinema no Recife, novas gerações de realizadores continuam surgindo no estado. Muitos começam em curtas-metragens, projetos independentes ou oficinas comunitárias e passam a integrar uma cadeia de produção que envolve técnicos, atores e produtores locais.

Projetos e produções independentes têm aproximado jovens do audiovisual em bairros e comunidades do Recife. Na Ilha de Deus, por exemplo, moradores participaram e acompanharam de perto as etapas de filmagem do curta-metragem "Tainara", de Juliana Soares e Igor Travassos.

Turismo 'secreto' e redescoberta da cidade

Ambientado em 1977, o filme foi gravado em quase 50 locais do Recife. Com cenografia e efeitos visuais, diversos espaços da cidade voltaram ao visual da época. Hoje, alguns desses lugares têm atraído curiosos e fãs da produção.

O recifense Roberto Tavares assistiu ao filme várias vezes e passou a visitar as locações. "A gente sai da Praça do Arsenal e vai percorrendo algumas das principais locações", explica. Entre os pontos estão o próprio São Luiz, o Ginásio Pernambucano e a Rua da União. Segundo ele, muitos moradores redescobrem a cidade ao perceber que lugares do cotidiano aparecem na tela.