Palma de Ouro de 'O Pagador de Promessas' completa 50 anos e marca história do cinema brasileiro
Palma de Ouro de 'O Pagador de Promessas' completa 50 anos

Palma de Ouro de 'O Pagador de Promessas' completa 50 anos e marca história do cinema brasileiro

Quando a disputa de Melhor Filme Internacional for anunciada no palco do Oscar, neste domingo (15), 'O Agente Secreto' será a sexta produção na história a representar o Brasil na categoria. A presença do país na disputa, que já contou com 'O Quatrilho' (1996), 'O Que É Isso, Companheiro?' (1998), 'Central do Brasil' (1999) e o vitorioso 'Ainda Estou Aqui' (2025), começou há mais de seis décadas com 'O Pagador de Promessas'.

Primeira indicação brasileira ao Oscar

Dirigido por Anselmo Duarte, de Salto (SP), 'O Pagador de Promessas' concorreu ao prêmio em 1963, na categoria até então chamada de Melhor Filme Estrangeiro, sendo o primeiro filme brasileiro, e também da América do Sul, indicado ao Oscar. A estatueta ficou com o francês 'Sempre aos Domingos', mas a indicação marcou definitivamente a entrada do cinema brasileiro no circuito internacional.

"A indicação ocorreu em um momento particularmente rico. Havia diferentes tendências convivendo no cinema brasileiro. De um lado, um cinema mais clássico e narrativo, como o próprio filme de Anselmo Duarte; de outro, produções mais experimentais ligadas ao nascente Cinema Novo", comenta o crítico de cinema e professor universitário de Bauru (SP) Álvaro Cruz.

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Conquista da Palma de Ouro em Cannes

Antes mesmo da indicação ao Oscar, o longa já havia conquistado reconhecimento internacional ao vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962, prêmio máximo do evento e, até hoje, único concedido a um filme brasileiro. A repercussão foi imediata à época. A equipe voltou ao país recebida por multidões, e o impacto internacional do filme foi tão grande que, segundo relatos da época, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, teria pedido uma sessão do longa na Casa Branca.

"Quando voltou ao Brasil com a Palma de Ouro conquistada no Festival de Cannes, Anselmo foi recebido por uma multidão no porto de Santos (SP). Inclusive, há muitos relatos de que o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, pediu uma sessão do filme na Casa Branca, o que mostra o alcance simbólico que a obra teve naquele momento", afirma Álvaro Cruz.

História curiosa do troféu

A Palma de Ouro conquistada pelo filme em Cannes também tem uma história curiosa. O troféu original ficou desaparecido por anos e foi encontrado apenas em 2022, dentro de um cofre da antiga Prefeitura de Salto, cidade natal de Anselmo Duarte.

Enredo e relevância atual

Baseado na peça do dramaturgo Dias Gomes, o filme acompanha Zé do Burro, vivido por Leonardo Villar, um agricultor simples que promete carregar uma cruz até Salvador, na Bahia, caso seu burro sobreviva após ser atingido por um raio. Quando chega à capital baiana para cumprir o voto religioso, ele encontra resistência da Igreja por ter feito a promessa em um terreiro de candomblé, desencadeando um conflito que mobiliza a cidade.

Segundo Álvaro, a força narrativa permanece atual justamente por essa dimensão coletiva. "O filme transforma o espaço público em palco dramático. A escadaria da igreja vira um anfiteatro onde se discutem religião, intolerância e tensões sociais brasileiras que continuam presentes hoje", analisa.

Recepção no Brasil e legado

Apesar do reconhecimento internacional, 'O Pagador de Promessas' não foi unanimidade no Brasil. Na época, o movimento do Cinema Novo defendia um cinema mais político e experimental e viu o filme com desconfiança. O diretor Glauber Rocha, um dos principais nomes do movimento, esteve brevemente ligado à produção, mas depois se tornou crítico da obra, considerada por parte da nova geração como excessivamente clássica e próxima da estética tradicional.

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"O filme foi acusado de ser acadêmico e herdeiro do modelo de estúdio, enquanto o Cinema Novo buscava ruptura estética e política", afirma Álvaro. Ainda assim, ele destaca que o tempo ampliou a leitura sobre o longa. "Mesmo com esse classicismo, o filme tem soluções visuais muito modernas e momentos de encenação bastante inventivos. Sua atualidade está especialmente na discussão do espaço público como palco dramático. Hoje é possível perceber que ele não era tão conservador quanto parecia para seus críticos da época", avalia.

Anselmo Duarte e seu impacto

Nascido em Salto, no interior de SP, em 1920, Anselmo Duarte começou no cinema ainda criança, trabalhando em salas de projeção. Ao longo da carreira, participou de mais de 40 produções como ator, roteirista e diretor. Antes de dirigir o filme indicado ao Oscar, Duarte era conhecido principalmente como ator e galã das produções da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. O 'Pagador de Promessas' foi apenas seu segundo trabalho como diretor, após 'Absolutamente Certo'.

Para o crítico, o reconhecimento internacional fez justiça ao cineasta. "O prêmio em Cannes e a indicação ao Oscar consolidam o crescimento do Anselmo Duarte dentro de um cinema brasileiro que ainda buscava identidade industrial e artística. Ele conseguiu dialogar com o público sem abrir mão de temas profundamente nacionais", afirma. O diretor morreu em 2009, aos 89 anos, permanecendo como o único brasileiro vencedor da Palma de Ouro.

Paralelos com o cinema atual

Mais de seis décadas depois, o cinema brasileiro volta ao centro das atenções internacionais com 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho, também premiado em Cannes nas categorias de Melhor Diretor para o próprio Kleber e Melhor Ator para Wagner Moura. Para Álvaro, há paralelos entre os dois momentos históricos.

"O cinema brasileiro sempre foi um cinema que lutou muito para existir e continua lutando. Foi assim nos anos 60 e continua sendo agora", pontua. "Naquele período, havia reconhecimento artístico crescente, mas também instabilidade política e institucional. Pouco depois, viria a ditadura militar. Ainda assim, o Cinema Novo sobreviveria e produziria obras vigorosas, como 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' e 'Terra em Transe'. Hoje, o cenário repete essa tensão entre reconhecimento e crise. O setor vive debates sobre políticas públicas, financiamento e a regulação dos serviços de streaming", diz.

Ele aponta ainda que o clássico de 1962 deixa uma lição que continua atual para o cinema brasileiro. "Eu acho que o legado deixado, e que está em 'O Agente Secreto', é o diálogo com o público. É possível dialogar com o público mantendo identidade autoral. O público se apega à trama, à história, aos personagens, tem um envolvimento emocional. São filmes que dialogam com o público, mas, ao mesmo tempo, não abrem mão de uma certa experimentação. Filmes que conseguem esse equilíbrio ampliam naturalmente seu alcance", conclui.