Produções cinematográficas brasileiras reacendem reflexão sobre período autoritário
Os filmes O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, alcançaram reconhecimento internacional ao representar o Brasil em premiações de prestígio como o Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar. No cenário nacional, essas obras cinematográficas têm estimulado discussões profundas sobre o período ditatorial iniciado com o golpe militar de 1964, trazendo à tona silenciamentos trágicos causados pela violência e impunidade daquela época.
O silêncio como marca do sofrimento psicológico
Rafael Alves Lima, psicanalista e professor de História e Filosofia da Psicologia na Universidade de São Paulo, destaca que o silêncio caracterizou o sofrimento psicológico durante os anos de regime autoritário. "Quando as circunstâncias políticas suspendem a liberdade da palavra, falar e escutar torna-se temerário", avalia o especialista, que participou de projetos dedicados ao testemunho de sobreviventes da ditadura e da violência policial contemporânea.
Segundo Lima, autor de Psicanálise na Ditadura (1964-1985): História, Clínica e Política, quando o Estado "não se responsabiliza pelos crimes que comete, o trauma tende a se eternizar e a se repetir". O pesquisador enfatiza a importância crucial das políticas de memória, verdade e justiça como mecanismos para trazer à superfície "a dimensão psicológica do trauma" e impedir repetições históricas.
Marcas psíquicas da tortura e desaparecimento forçado
O especialista descreve a tortura como experiência avassaladora que desorganiza a orientação do sujeito no tempo e espaço. "As percepções e sensações se fragmentam, as ligações entre o eu e o corpo se desintegram", explica Lima, utilizando a analogia da "autotomia psíquica" desenvolvida pelo psicanalista húngaro Sándor Ferenczi.
Quanto ao desaparecimento forçado, o psicanalista destaca que a ausência de rituais de despedida cria um "vácuo" que impede o processo de luto. "Os rituais são confirmações públicas que dão materialidade à morte", observa Lima, comparando essa experiência com o sofrimento vivido durante a pandemia de covid-19, quando muitas famílias não puderam realizar despedidas adequadas.
Violência arbitrária e perseguição durante o regime
Analisando a narrativa de O Agente Secreto, Lima destaca como o filme revela "uma camada espantosamente arbitrária de perseguições na ditadura". O personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura, representa cidadãos que, mesmo sem propósitos de confrontação direta ao regime, sofreram perseguição sistemática.
"Havia um método que tinha justamente a difusão psicológica do terror como princípio fundamental", explica o especialista, ressaltando como o ambiente acadêmico foi particularmente afetado pela repressão. A Universidade de São Paulo, onde Lima atua como professor, teve numerosos casos de docentes perseguidos e demitidos através da chamada "aposentadoria compulsória".
Memória fragmentada e desafios do reconhecimento
O psicanalista aborda a complexidade da memória traumática, citando a teoria freudiana das "lembranças encobridoras". Segundo essa perspectiva, memórias vívidas de detalhes aparentemente irrelevantes podem encobrir experiências traumáticas como mecanismo de sobrevivência psíquica.
"É preciso lembrar para não repetir, é fato", afirma Lima. "Mas como elaborar a dor de lembrar dos nossos traumas mais agudos?" O especialista critica a falta de consistência nas políticas de memória sobre o período ditatorial, exemplificada pelo cancelamento dos eventos oficiais planejados para relembrar os 60 anos do golpe militar durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Continuidades entre violência ditatorial e contemporânea
Lima participou do projeto Clínicas do Testemunho, iniciativa inserida nas políticas de reparação do Estado através da Comissão de Anistia, e posteriormente integrou o coletivo Margens Clínicas, que escuta vítimas contemporâneas da violência estatal, especialmente populações negras e periféricas.
"Quando a gente olha para a violência policial nas suas quatro dimensões fundamentais (raça, classe, gênero e território), fica evidente que o alvo é repetidamente o mesmo", observa o psicanalista. Ele identifica tanto continuidades quanto descontinuidades entre a violência do período ditatorial e a violência policial atual, ressaltando que "as ferramentas da violência se sofisticaram na ditadura, certamente, e isso tem um impacto enorme na violência atual".
Compromisso ético dos profissionais da escuta
Refletindo sobre a expansão da psicanálise brasileira durante a ditadura, Lima levanta a hipótese de que, com exceções, ela teria servido predominantemente "a uma espécie de adaptação da pessoa ao próprio sofrimento, sem considerar as condições de surgimento do que a fazia sofrer".
Para o especialista, a escuta psicológica "não pode se dar ao luxo de ignorar o contexto histórico, os conflitos sociais, sobretudo quando a democracia está suspensa". O compromisso ético fundamental, segundo Lima, deve orientar-se para "a emancipação do sujeito", evitando práticas que possam "empurrar ainda mais para o silenciamento e a opressão".
Efeitos psíquicos da impunidade e déficit democrático
Analisando a gestão da pandemia de covid-19 no Brasil, Lima destaca como a "perda da autonomia das ciências" representa sinal inequívoco de problemas democráticos. "Uma população que elege nas urnas um representante tende a se orientar por aquilo que ele determinar, ainda mais em um momento de catástrofe social", observa o psicanalista.
Quando lideranças políticas emitem mensagens ambíguas ou negacionistas, a população "perde a base simbólica da confiança na palavra e na sustentação do laço social". Lima conclui que "essa base simbólica de confiança, que sustentaria um projeto comum de sociedade, está devastada", ressaltando a importância do julgamento de eventos como o golpe de 8 de janeiro como marco na transformação desse cenário.
