Oscar brasileiro: sucesso internacional não garante futuro do cinema sem incentivos públicos
Oscar brasileiro: sucesso não garante futuro sem incentivos

Momento histórico do cinema brasileiro no Oscar enfrenta incertezas sobre futuro

O Brasil vive um período inédito de reconhecimento internacional no cinema, com a primeira estatueta do Oscar conquistada em 2025 por "Ainda Estou Aqui" e a indicação de "O Agente Secreto" a quatro categorias na cerimônia deste domingo (15). Para um país que passou décadas na expectativa após o quase-Oscar de Fernanda Montenegro por "Central do Brasil", esta trajetória representa uma conquista significativa. No entanto, cineastas da nova geração questionam se este bom momento terá continuidade e se realmente beneficia a produção cinematográfica nacional.

Casos específicos não refletem realidade geral

Os profissionais ouvidos destacam que os sucessos recentes são exceções, não regras. "Ainda Estou Aqui" de Walter Salles e "O Agente Secreto" de Kleber Mendonça Filho compartilham características que facilitaram seu reconhecimento internacional: diretores já consagrados e conhecidos no exterior, distribuição por grandes empresas como Neon e Sony, e estreia em festivais internacionais de prestígio.

Rodrigo Teixeira, produtor que participou de painel no Festival de Tiradentes, reconhece o "empoderamento histórico" que as indicações consecutivas ao Oscar representam para o setor. Porém, ele adverte: "Eu não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois ou três anos, voltando para o Oscar ou ocupando uma posição de destaque como agora com esses dois filmes".

O problema fundamental, segundo os especialistas, é que o mercado internacional tende a enxergar o cinema latino-americano como um bloco único, onde um país se destaca temporariamente. O Brasil ocupou esta posição em 2024 e 2025, mas não há garantias de que manterá este status nos próximos anos.

Falta crônica de incentivos públicos

Independentemente do reconhecimento internacional, a produção cinematográfica brasileira depende criticamente de políticas públicas de fomento. Matheus Peçanha, cineasta e diretor da Associação de Produtoras Independentes, explica: "Entre 2012 e 2018, você teve um investimento muito massivo e que foi muito bom pro cinema brasileiro. Foram políticas muito consistentes de fomento, tanto a produção do cinema, quanto de apoio, de programas de apoio à participação de produtores em eventos de mercado. E o reflexo vem só agora".

"O Agente Secreto" só pôde ser realizado graças ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mas cineastas independentes enfrentam dificuldades crescentes. Gabriel Martins, diretor de "Marte Um" (selecionado para representar o Brasil no Oscar de 2022), revela: "'Marte Um' abriu portas para mim, me provocou muita coisa, mas não me garantiu uma carreira, um momento de estar com vários projetos engatilhado. Eu dependo de editais aparecerem para fazer um próximo filme".

Matheus Peçanha destaca a contradição: "Como que, no ano que você tem o primeiro Oscar do Brasil, você não lança um edital seletivo? Eu sei qual é o cronograma do edital da Colômbia... do Uruguai... Eu não sei qual é o cronograma de editais do Brasil, o país onde eu trabalho".

Resposta do Ministério da Cultura

O Ministério da Cultura informou que o comitê gestor do FSA ampliou os investimentos em R$ 100 milhões para a Chamada Pública de Produção Seletivo de Cinema de 2024, totalizando R$ 260 milhões para financiar longa-metragens. A pasta optou por unir os editais seletivos de 2024 e 2025 "diante do volume e alta demanda por investimentos".

Em nota, o órgão afirmou: "A ANCINE assegurou a continuidade dos investimentos na cadeia produtiva do audiovisual mesmo no contexto de aprovação tardia do orçamento federal de 2025, garantindo a execução financeira prevista sem interrupção dos processos em curso". O lançamento de novos editais está previsto para abril deste ano.

Reconhecimento internacional versus realidade nacional

Gabriel Martins reconhece que a atenção internacional gerada pelo Oscar impactou positivamente a imagem do cinema brasileiro no exterior. "O Agente Secreto" colocou Pernambuco no mapa mundial, destacou o Carnaval e gerou reportagens em grandes portais internacionais sobre a cultura nacional.

No entanto, ele alerta para o paradoxo: "O que a gente está tentando gritar é sobre esse paradoxo: estamos num momento de dois anos em seguida, sendo celebrados em alto volume mundialmente. E quando corta para cá, a gente ainda se vê muito vulnerável em termos de produção".

Os cineastas são unânimes em afirmar que o reconhecimento internacional não garante, por si só, um futuro sustentável para o cinema brasileiro. São necessários mais investimentos, incentivos consistentes e melhor regulamentação. "A gente não pode falar 'agora vai', sabe? O sentimento de 'agora vai' não veio. Não veio desde o ano passado e, esse ano, não tem indicações de que o que quer que aconteça lá no dia do Oscar esse ano vai guinar a produção brasileira para um lugar mais otimista", conclui Gabriel.

O momento atual do cinema brasileiro nas premiações internacionais é histórico, mas sua continuidade depende fundamentalmente de políticas públicas robustas que apoiem não apenas os cineastas consagrados, mas também as novas gerações que buscam espaço e recursos para contar suas histórias.