Kleber Mendonça Filho: do jornalismo ao Oscar, a paixão pelo Recife que inspira o cinema brasileiro
Kleber Mendonça Filho: do jornalismo ao Oscar com paixão pelo Recife

Kleber Mendonça Filho: a trajetória do jornalista pernambucano que conquistou o Oscar

A poucos dias da cerimônia do Oscar, o diretor Kleber Mendonça Filho, natural de Pernambuco, acumula quatro indicações ao prêmio máximo do cinema mundial com o filme "O Agente Secreto". O que muitos não sabem é que sua formação acadêmica inicial foi em jornalismo, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde ingressou em 1988, em uma época em que o curso de cinema sequer existia na instituição.

Da escrita à sétima arte: uma transição natural

Entre sessões de cinema na casa do cineasta, primeiros vídeos como exercícios acadêmicos e experimentos pessoais, Kleber escolheu o jornalismo por sua paixão pela escrita. Contudo, o amor pelo cinema já fazia parte de sua vida desde a infância, conforme relata Winston Araújo, sócio-administrativo da CinemaScópio, produtora dos filmes de Mendonça Filho.

"Ele é uma enciclopédia de cinema. Sabe tudo: o ano de produção, a câmera utilizada, as lentes, os atores", afirma Winston, destacando o conhecimento profundo do diretor sobre a sétima arte.

Influências familiares e profissionais

Filho da historiadora Joselice Jucá, Kleber teve sua formação diretamente influenciada pela mãe, cujo trabalho reconhecido e formidável deixou marcas profundas em sua personalidade e abordagem cinematográfica. Além disso, o jornalista e fotógrafo José Afonso Júnior, professor da UFPE, cita a produtora Emilie Lesclaux como uma influência crucial.

Esposa e parceira de trabalho de Kleber, Emilie é descrita como uma colaboradora essencial em sua carreira, formando uma dupla profissional e familiar que tem filhos e uma sintonia notável em projetos cinematográficos.

Recife como personagem central

Antes de se consolidar como diretor, Kleber Mendonça Filho atuou como crítico de cinema, programador e curador na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife. Sua carreira começou com curtas-metragens, sendo "Recife Frio" um dos mais populares, que narra uma brusca queda de temperatura na cidade tropical com humor e crítica social.

Temas como esses reapareceriam em seus longas ficcionais subsequentes, incluindo "O Som ao Redor", "Aquarius" e "Bacurau". A paisagem do Recife, transformada em personagem e cenário, é uma constante em sua obra desde os primeiros trabalhos.

Em "Retratos Fantasmas", documentário sobre cinemas de rua, Kleber declara apaixonadamente: "Eu amo o Centro do Recife", frase que ecoa em sua filmografia e reflete sua conexão visceral com a cidade, principal cenário de "O Agente Secreto".

Do projecionista ao protagonista

Para concluir o curso de jornalismo, Kleber produziu vídeos sobre Seu Alexandre, projecionista dos antigos Cine Boa Vista e Cine Art-Palácio. Essa figura inspirou o personagem homônimo interpretado por Carlos Francisco em "O Agente Secreto", onde é sogro do protagonista.

Em entrevista à TV Globo, o diretor refletiu sobre a evolução do centro da cidade: "O centro do Recife, como um filtro, concentra a ideia e a lógica dessa cidade. Mesmo transformado, mantém sua personalidade e continua incrivelmente atraente, inspirando redescobertas", afirmou Kleber, destacando o caráter inspirador do local.

Reconhecimento internacional

Kleber Mendonça Filho já recebeu prêmios em festivais renomados, como a Cerimônia de Encerramento da 78ª edição do Festival de Cinema de Cannes, onde aceitou o prêmio de Melhor Ator em nome de Wagner Moura por "O Agente Secreto". Sua trajetória exemplifica como paixões pessoais, formação diversificada e raízes locais podem elevar o cinema brasileiro ao cenário global, colocando o Brasil na disputa por mais um Oscar.