Kleber Mendonça Filho reflete sobre sucesso estrondoso de 'O Agente Secreto' em vésperas do Oscar
Às vésperas da cerimônia do Oscar, onde seu filme O Agente Secreto concorre em quatro categorias, o cineasta Kleber Mendonça Filho concedeu uma entrevista exclusiva abordando o momento histórico do cinema brasileiro, suas críticas ao uso de inteligência artificial na criação cinematográfica e os dilemas envolvendo seu próximo projeto.
O ciclo virtuoso do cinema brasileiro e as políticas públicas
Questionado sobre o ciclo virtuoso que o cinema brasileiro vive nos últimos dois anos, Mendonça Filho foi enfático ao destacar que este sucesso não brotou do chão repentinamente. "Há uma construção gradual de uma produção que tem se firmado como cada vez mais diversa", afirmou o diretor, lembrando que quando começou a pensar em fazer cinema nos anos 1990, o cenário era árido e concentrado no eixo Rio-São Paulo.
O cineasta atribui parte significativa desta transformação às políticas públicas implementadas durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, especialmente os editais com cotas que permitiram que realizadores do Nordeste e outras regiões produzissem seus primeiros longas-metragens. "Tudo o que está acontecendo hoje vem de uma base pavimentada por obras como Retratos Fantasmas, Bacurau, Aquarius e O Som ao Redor", completou.
'O Agente Secreto' e o diálogo com a ditadura militar
Sobre seu filme mais recente, um thriller político ambientado em 1977 durante a ditadura militar, Mendonça Filho negou que a obra seja uma resposta direta ao filme Ainda Estou Aqui, que aborda a figura de um militante ilustre. "Eu terminei de filmar O Agente Secreto em agosto de 2024 e fui assistir a Ainda Estou Aqui só em setembro, no Festival de Veneza", explicou, acrescentando que nunca faria uma resposta a um filme que considera tão bonito.
O diretor revelou que O Agente Secreto busca contribuir com um cinema que olha para o passado do país, "algo que o Brasil geralmente evita fazer". Sobre o comentário irônico do ator Wagner Moura de que o filme só foi realizado por causa do ex-presidente Jair Bolsonaro, Mendonça Filho reconheceu que há uma verdade orgânica na afirmação.
"Eu não chegaria ao ponto de agradecer ao ex-presidente, mas, com certeza, o clima canalha instaurado naqueles anos me deu elementos cruciais para escrever o filme", admitiu o cineasta, explicando que percebeu paralelos entre o clima político dos anos Bolsonaro e os "anos dourados" do regime militar.
Premiações internacionais e o peso do reconhecimento
Com mais de setenta prêmios conquistados em todo o mundo, incluindo Globo de Ouro e distinções em Cannes, além das quatro indicações ao Oscar, Mendonça Filho refletiu sobre o significado deste reconhecimento. "Receber prêmios e ter o filme indicado ao Oscar tem um impacto social e cultural muito forte, pois mexe com a paixão, o amor e a admiração dos brasileiros", afirmou.
Questionado sobre o cansaço da campanha de premiação, o diretor revelou seu segredo: "sou um bom dorminhoco". Ele destacou a felicidade em visitar os melhores cinemas do mundo e a recepção calorosa que o filme tem recebido na França, Estados Unidos e Brasil.
Perspectivas contundentes sobre inteligência artificial
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Mendonça Filho expôs sua visão sobre o uso de inteligência artificial na criação cinematográfica. "Tenho menos do que zero interesse criativo nisso", declarou categoricamente.
O diretor explicou que O Agente Secreto levou dois anos para ser escrito, exigiu toda sua energia para construir a narrativa e horas de pesquisa artesanal no arquivo público estadual e na Cinemateca Brasileira. "Nenhuma ferramenta de IA vai entender o passado do Brasil a partir do meu ponto de vista histórico e artesanal", argumentou.
Mendonça Filho foi ainda mais contundente ao criticar cineastas que delegam a criação a máquinas: "Delegar a criação de um filme a uma máquina de inteligência artificial é como usar um modelo de algoritmo para escrever uma carta de amor a alguém. Não faz o menor sentido".
O futuro do cinema e a expansão do streaming
Sobre o lançamento de O Agente Secreto na Netflix após o sucesso em salas de cinema, Mendonça Filho expressou preocupação com a diminuição precipitada da janela do cinema. "O streaming é uma tecnologia incrível, mas não deve ser a primeira janela de exibição", defendeu.
O diretor destacou que seu filme alcançou 25,5 milhões de espectadores nos cinemas antes de chegar à plataforma de streaming, construindo uma personalidade na tela grande. "O que me preocupa muito é a diminuição precipitada da janela do cinema, pois isso confunde o público", alertou, explicando que historicamente as pessoas sabiam que lançamentos ocorriam no cinema, mas hoje esta referência se perdeu.
Próximos projetos e o dilema de Hollywood
Sobre seus planos futuros, Mendonça Filho revelou que tem tido conversas para trabalhar em Hollywood, mas enfrenta dificuldades em encontrar projetos adequados. "É como ter uma chave e precisar achar a fechadura exata onde vai funcionar", comparou.
O diretor foi categórico ao afirmar que assumir a direção de um blockbuster como "Vingadores 19" está fora de questão. "Eles já devem ter aplicativos e inteligência artificial para fazer esse tipo de filme de estúdio", brincou, acrescentando que preferiria receber um roteiro ruim com uma história que quisesse contar, pois poderia trabalhar e alterar o texto.
Enquanto aguarda a cerimônia do Oscar com ansiedade e esperança, Kleber Mendonça Filho já começa a pensar em seu próximo trabalho, mantendo sua defesa intransigente de um cinema artesanal, politicamente engajado e firmemente ancorado na experiência da sala de cinema.
