Figurino de 'O Agente Secreto' resgata estética dos anos 70 com pesquisa minuciosa em arquivos e álbuns de família
O figurino de época se destaca como um dos elementos mais marcantes do filme "O Agente Secreto", que concorre em quatro categorias do Oscar no próximo domingo (15). Para recriar com autenticidade o visual do Recife na década de 1970, a figurinista Rita Azevedo realizou uma pesquisa histórica profunda, explorando arquivos públicos e, de forma especial, álbuns de família que trouxeram referências íntimas e pessoais.
Parceria de longa data com o diretor Kleber Mendonça Filho
Em entrevista à TV Globo, Rita revelou que sua colaboração com o cineasta Kleber Mendonça Filho começou em 2015, quando foi convidada para criar o figurino do filme "Aquarius". Desde então, os dois trabalharam juntos em três produções cinematográficas, consolidando uma parceria artística que se mostrou fundamental para "O Agente Secreto".
"Eu tenho uma parceria com o Kleber já de três filmes. É uma parceria longa, então, quando ele me chamou para fazer 'O Agente Secreto' e eu vi que era dos anos 70, eu sabia que eu tinha a obrigação de fazer uma pesquisa que dialogasse, de alguma forma, com o imaginário do Kleber nesse período", afirmou a figurinista.
Oito semanas de pesquisa intensa e referências pessoais
A equipe do filme dedicou oito semanas completas à pesquisa e preparação, consultando acervos públicos e reportagens da época para compreender como as pessoas se vestiam naquele período histórico. No entanto, as referências mais valiosas vieram de dentro da própria casa de Rita, através de álbuns de família que capturaram o cotidiano dos anos 70.
A identidade visual do protagonista, interpretado por Wagner Moura, foi diretamente inspirada no estilo do pai da figurinista, que também era engenheiro. Além das roupas, as fotografias familiares ajudaram a modelar expressões corporais e trejeitos que enriqueceram a construção do personagem.
"Eu acabei mergulhando no universo de um álbum de um período que eu não vivi, mas que eu era muito familiarizada. Foi muito importante entrar nesse universo do meu pai, resgatar essa vida dele enquanto engenheiro nos anos 70 e trazer, para além do figurino, algumas expressões corporais que ajudaram, inclusive, Wagner nessa construção do personagem", explicou Rita.
Desafios de recriar uma época com precisão histórica e social
O trabalho exigiu transportar visualmente cerca de 50 personagens e centenas de figurantes para o ano de 1977, observando cuidadosamente diferenças entre classes sociais, idades e até o clima característico do Recife. A figurinista destacou a necessidade de retratar o calor da cidade através de detalhes como blusas abertas, shorts curtos e modelagens específicas de calças e camisas.
"A gente tinha que observar várias classes sociais, as pessoas não se vestiam da mesma forma [...] A gente precisava também retratar este calor do Recife e entender de que forma a gente conseguiria fazer isso, com blusas abertas com botões até quase no umbigo... os shorts super curtos, a modelagem das calças, a modelagem das camisas… tudo isso era de extrema importância e eram esses álbuns que traziam essas informações", afirmou.
Logística complexa e produção em larga escala
Um dos maiores desafios da produção foi vestir os figurantes de uma cena de carnaval de rua que reuniu aproximadamente 300 pessoas. No total, quase três mil peças foram utilizadas nas gravações, sendo que cerca de 70% vieram de acervos especializados em aluguel de roupas de época para cinema. O restante foi confeccionado por costureiras locais, seguindo rigorosamente as referências pesquisadas pela equipe.
Profissionais de figurino acompanharam as filmagens no set para realizar ajustes de última hora, com duas costureiras fixas e cerca de cinco atuando de forma itinerante para garantir que cada detalhe estivesse perfeito.
Sucesso inesperado e reconhecimento do público
Entre todas as peças criadas para o filme, a blusa da Pitombeira - tradicional bloco carnavalesco de Olinda - se tornou especialmente marcante para o público. A peça virou um verdadeiro fenômeno, com filas de espera para compra e até falsificações sendo vendidas por camelôs no Centro do Recife.
"A blusa da Pitombeira virou uma peça icônica, é impressionante. Foi emocionante ver, fui dois dias para [o carnaval de] Olinda e recebi muitas imagens dos amigos. É a potência do filme, eu acho que a potência dos atores, mas é a potência do figurino também. Foi muito gratificante", compartilhou Rita.
Expectativa para o Oscar e celebração do trabalho
Com o reconhecimento do seu trabalho e a indicação ao Oscar, Rita Azevedo vive este momento com entusiasmo e esperança. "Eu estou vivendo um dia após o outro, mas eu estou muito feliz, e a gente tem comemorado muito. O Oscar vai vir aí para coroar, e a gente vai levar uma estatueta com certeza", declarou a figurinista, que aguarda ansiosamente a principal premiação do cinema mundial.
O resultado final é um testemunho do poder da pesquisa histórica combinada com referências pessoais, criando uma representação autêntica e emocionalmente rica de uma época que continua a fascinar o público brasileiro e internacional.



