De Esopo à nova animação da Pixar: por que as fábulas se renovam – e nunca deixam de fascinar
O filme Cara de Um, Focinho de Outro utiliza um mote que vem desde a Antiguidade: histórias que empregam animais para expor as mazelas humanas. A nova animação da Pixar, já em cartaz nos cinemas, revitaliza as fábulas milenares com uma protagonista singular: uma garota universitária alienada da humanidade, cuja consciência é transferida para um robô-castor altamente realista.
Uma jornada leve com profundidade típica da Pixar
Deslumbrada com a folhagem e a cacofonia da biodiversidade, Mabel – agora em corpo de robô-castor – corre pela floresta em êxtase até testemunhar uma cena aterrorizante: uma ursa abocanha outro roedor indefeso. Ao interferir na ordem natural, ela constrange tanto presa quanto predador, revelando-se um estranho no ninho. Essa é apenas uma das lições que a jovem aprenderá numa jornada leve e irresistível, como se espera das criações da Pixar.
Mas, assim como as melhores produções do estúdio – vide os conceitos sobre emoções humanas tratados em Divertida Mente e sua continuação –, o novo filme apresenta algo de mais profundo e relevante sob seu colorido. Com sua mensagem sobre a relação do homem com o meio ambiente, Cara de Um, Focinho de Outro atesta como as tramas contemporâneas estão reinventando com brilho uma forma narrativa tão antiga quanto essencial.
A tradição milenar das fábulas
No senso estrito, o gênero diz respeito a histórias morais nas quais animais são personagens usados para traduzir mazelas e comportamentos reprováveis dos seres humanos, expondo arrogância e soberba. “Ela aprende, por exemplo, que ver o bem nas pessoas não faz mal”, disse à VEJA o diretor Daniel Chong.
Com um quê de ficção científica descontraída, o filme da Pixar engrossa uma tradição que vem desde a Antiguidade. Popularizadas pelo grego Esopo (620 a.C.-564 a.C.) e registradas por escrito séculos mais tarde, as fábulas sempre foram utilizadas para educar crianças – que aprendem a importância do trabalho graças a A Cigarra e a Formiga, ou o perigo da arrogância por meio de A Lebre e a Tartaruga.
Evolução para romances e alegorias políticas
Com o passar do tempo, o formato se tornou mais rebuscado e deu origem a romances extensos – que, mais que alertas genéricos, espelham agruras sociopolíticas. Nos anos 1920, o escritor austríaco Felix Salten publicou Bambi, sobre um cervo que sobrevive à brutalidade da selva e aos ataques humanos. Anos mais tarde, o livro foi banido e queimado por autoridades nazistas na Alemanha, que enxergaram na trama críticas ao antissemitismo.
A obra ganhou adaptação animada clássica da Disney em 1942 – três anos antes do surgimento de outra fábula potente, A Revolução dos Bichos, publicada por George Orwell como denúncia dos perigos do regime totalitário de Josef Stalin na União Soviética. Olhando para diferentes espécies reunidas numa fazenda, o genial escritor inglês teceu uma metáfora que transformou porcos em guerrilheiros e imortalizou o chavão: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”.
Sucesso contemporâneo das narrativas com animais
Hoje, o sucesso é maior quando essas histórias não têm de fazer jus a clássicos. A franquia Zootopia, que tece paralelos ao racismo com seus personagens de quatro patas, já arrecadou mais de 2,8 bilhões de dólares ao redor do globo, enquanto o encantador longa Okja (2017), do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho, conquistou fãs com seu libelo contra maus-tratos aos animais.
Cara de Um, Focinho de Outro já é o maior sucesso de crítica da Pixar desde Viva – A Vida é uma Festa (2017) e especialistas preveem a melhor bilheteria do estúdio desde Divertida Mente 2 (2024). Se assim for, será mais uma prova do fascínio sem fim despertado pelas fábulas.
Entrevista com o diretor: mensagens morais e escolhas criativas
Em entrevista à VEJA, o diretor Daniel Chong detalhou as mensagens morais do filme:
- Por que castores? “Queria fazer um filme com pinguins, mas o chefe da Pixar, Pete Docter, achou que estavam batidos. Pesquisando, descobri que castores são incríveis, peças-chave de seu ecossistema. Eles criam represas, acolhem biodiversidade e coexistem com várias espécies. São uma boa metáfora sobre a persistência da natureza – e são adoráveis.”
- Sobre a protagonista e nossos tempos: “Mabel está no lado extremo do cinismo, mas o castor-rei que encontra é o oposto. Ele tem fé na humanidade, o que ela acha ingênuo – assim como boa parte do público. Mas Mabel aprende que ver o bem nas pessoas não faz mal. A jornada a faz ter esperança sobre segundas chances.”
- Humor na cadeia alimentar: “É culpa da minha geração: os filmes infantis eram um pouco malucos, como Gremlins e Os Fantasmas Se Divertem.”
Com sua mistura de tecnologia, natureza e reflexão moral, Cara de Um, Focinho de Outro demonstra como as fábulas continuam a se reinventar, mantendo seu poder de encantar e educar através dos séculos.



