Cidade de Deus: A reviravolta histórica nas indicações ao Oscar
No Oscar de 2004, o filme brasileiro Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles, alcançou um marco inédito para o país ao receber quatro indicações: melhor direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia. Este feito só foi igualado recentemente, em 2026, pela produção nacional O agente secreto, que também concorreu em quatro categorias, incluindo melhor filme e filme internacional. A edição de 2026 promete ser ainda mais marcante para o Brasil, com uma indicação adicional para Adolpho Veloso, diretor de fotografia de Sonhos de trem.
O mistério da não indicação em 2003
Lançado no Brasil em 2002, Cidade de Deus não conseguiu uma indicação na categoria de melhor filme internacional (então chamada de filme em idioma estrangeiro) no Oscar de 2003. Muitos acreditavam que isso se devia a uma suposta esnobada da Academia Brasileira de Cinema, mas essa versão não corresponde à realidade. Na verdade, o filme foi sim selecionado pelo Brasil, através de uma comissão formada por nomes como Guilherme de Almeida Prado, Walter Lima Júnior, Zita Carvalhosa e Maria do Rosario Caetano, que atuava sob a Agência Nacional de Cinema (Ancine).
Almeida Prado, diretor de filmes como A dama do cine Shanghai, revela que a decisão foi unânime. "Eram umas cinco ou seis pessoas, no máximo. Eu lembro que o Walter Lima Júnior nem foi à reunião, porque disse que era tão óbvio o filme, que ele mandou escrito: 'eu voto no Cidade de Deus e não preciso ir à reunião porque tenho certeza que é o filme. Não vou perder tempo discutindo'", conta o cineasta.
O problema com a Academia Americana
O obstáculo real veio dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Segundo Fernando Meirelles, o filme não agradou ao público mais velho que predominava entre os votantes da categoria de filme internacional na época. "O que eles falavam é que quem votava em filme estrangeiro era só aposentado. Só o público muito velho, que tinha disponibilidade para ir à tarde ao cinema assistir a dois filmes por dia", explica o diretor.
Essa faixa etária, com média de 50 a 60 anos, não se identificou com a narrativa intensa de Cidade de Deus, resultando na ausência do filme entre os indicados de 2003. Meirelles acredita que, se tivesse sido indicado naquele ano, o filme teria grandes chances de vencer, dado seu sucesso em festivais como Cannes e os 48 prêmios internacionais que acumulou.
A estratégia que levou às quatro indicações
Curiosamente, a não indicação em 3 acabou sendo benéfica. As regras do Oscar determinam que um filme indicado na categoria internacional não pode concorrer em outras categorias no ano seguinte. Portanto, se Cidade de Deus tivesse entrado na lista em 2003, não teria elegibilidade para as quatro indicações em 2004.
Meirelles reflete: "Acabei me dando muito bem, porque acabei tendo uma indicação pessoal de melhor diretor e isso certamente ajudou a minha carreira". Além disso, a presença de votantes mais jovens em outras categorias contribuiu para o reconhecimento do filme.
O papel crucial da Miramax e Harvey Weinstein
Um fator decisivo para as indicações foi o investimento da Miramax, a distribuidora internacional do filme, fundada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein. Na época, Harvey Weinstein era uma figura poderosa em Hollywood, conhecido por sua influência nas premiações. Bráulio Mantovani, roteirista do filme, revela: "Por que o Cidade de Deus conseguiu aquelas quatro indicações? Porque o Harvey Weinstein investiu. Está em cana hoje. Não estou falando bem dele, não. Eu me senti encontrando com um mafioso quando conheci o cara lá em Los Angeles".
Weinstein previu corretamente as indicações para montagem, fotografia e roteiro adaptado, mas subestimou as chances de Meirelles na direção. Essa campanha agressiva foi fundamental para colocar Cidade de Deus no radar da Academia, culminando no feito histórico que ainda ressoa no cinema brasileiro.
Para celebrar o sucesso de Ainda estou aqui nos Estados Unidos em 2025, o g1 conversou com Meirelles, Mantovani e Almeida Prado, desvendando os bastidores dessa reviravolta que marcou a trajetória do cinema nacional no cenário internacional.



