Diretor de arte de 'O Agente Secreto' revela segredos da construção visual do filme indicado ao Oscar
Thales Junqueira, o diretor de arte por trás do longa-metragem O Agente Secreto, compartilhou exclusivamente com a coluna GENTE os detalhes da elaboração da estética política que marcou a produção cinematográfica brasileira. O filme, que recebeu quatro indicações ao Oscar 2026, utiliza elementos visuais para transportar o espectador para o clima tenso dos anos 1970 no Brasil.
A inspiração por trás dos cartazes políticos
Um dos momentos mais icônicos do filme ocorre quando Wagner Moura aparece próximo a um orelhão, com cartazes dos políticos Cid Sampaio e Marcos Freire ao fundo. Essa composição não estava prevista no roteiro original e foi uma sugestão direta de Thales Junqueira. O diretor de arte se inspirou em fotografias pernambucanas da década de 1950 que retratavam famílias com pôsteres políticos no cenário.
"Escolhemos dois políticos da época, Cid Sampaio e Marcos Freire, e colamos. Enquanto a equipe colava os cartazes, uma senhora passou e começou a comentar: 'Rasgue a cara do Cid Sampaio que esse homem era um demônio. Não mexam no Marcos Freire'", revelou Junqueira, destacando como elementos visuais podem despertar memórias e reações emocionais intensas.
Trajetória e colaboração com Kleber Mendonça Filho
Thales Junqueira, mineiro radicado em Pernambuco, tem uma trajetória de mais de uma década ao lado do cineasta Kleber Mendonça Filho. Ele participou de todos os longas de ficção do diretor, incluindo O Som ao Redor (2012) e Bacurau (2019). Para ele, o sucesso de O Agente Secreto era um desdobramento natural da carreira de Kleber no cinema brasileiro.
"A trajetória do Kleber no cinema brasileiro aponta nessa direção há muito tempo", afirmou Junqueira, acrescentando que a leitura forte do Brasil presente nos roteiros do diretor sempre indicou o potencial de alcance internacional.
A importância da direção de arte no cinema
Formado em jornalismo e ciências sociais, Thales Junqueira descobriu a direção de arte por acaso, através de um amigo. Ele explica que essa função é um recurso não verbal poderoso que traz informações sobre os personagens e seduz o espectador, garantindo uma imersão profunda na narrativa.
"A direção de arte pode ser um lugar muito saboroso para implantar pequenos recados ou referências. Tem gente que percebe esses detalhes, especialmente quando o filme vira um fenômeno cultural", destacou o profissional, que valoriza o trabalho coletivo e a contribuição de toda a equipe, do serralheiro ao produtor de objetos.
Easter eggs e interferências criativas
O filme esconde várias referências para os espectadores mais atentos. Na cena em que o personagem de Wagner Moura observa o Recife da cabine do Cinema São Luís, aparece um homem de camiseta amarela sendo fotografado na ponte – uma reprodução da capa do filme anterior de Kleber, Retratos Fantasmas.
Junqueira também revelou que, em Bacurau, sugeriu mudanças significativas no cenário da fazenda onde os antagonistas ficariam hospedados, transformando-a em um acampamento militar que alterou completamente a dinâmica da cena.
Repercussão e planos futuros
A indicação ao Oscar trouxe visibilidade imediata para Thales Junqueira, que recebeu cerca de 14 roteiros de longa-metragem apenas entre dezembro e março. No entanto, ele afirma trabalhar com mais segurança e tranquilidade do que no início da carreira.
O diretor de arte também compartilhou relatos emocionantes de pessoas que cresceram no Recife nos anos 1970 e se reconheceram nos detalhes do filme, desde calendários domésticos até sacolinhas de supermercado que ativaram memórias esquecidas.
Quanto aos próximos projetos, Junqueira acaba de finalizar No Jardim do Ogro, de Carolina Jabor, protagonizado por Alice Braga, e prepara-se para trabalhar em Selvageria, adaptação de Os Sertões de Euclides da Cunha, que será filmada em Canudos, na Bahia.
