O mestre das sandálias que dançam na Sapucaí
No universo de cores, plumas e brilhos que compõe o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, existe um elemento fundamental que muitas vezes passa despercebido pelo público, mas é essencial para o espetáculo: as sandálias das passistas. Por trás desse calçado especial está a história de Pedro Alberto, um sapateiro mineiro radicado no Rio que há mais de cinco décadas dedica sua vida a calçar as maiores estrelas da Sapucaí.
Artesanato que resiste ao tempo e ao asfalto
Com uma trajetória impressionante de mais de 50 anos no ofício, Pedro Alberto construiu sua reputação através de um método de produção estritamente artesanal. Em seu ateliê, ele coordena uma equipe de artesãos experientes, defendendo uma filosofia que valoriza o trabalho humano acima de tudo. "As máquinas são as pessoas", afirma ele em entrevista exclusiva.
O diferencial de suas sandálias reside na combinação perfeita de três elementos essenciais para quem enfrenta horas de samba intenso:
- Segurança para movimentos complexos
- Beleza que complementa a fantasia
- Conforto que permite horas de ensaio
O segredo está nos pneus
Para garantir que o calçado suporte o impacto dos ensaios de rua e as condições do asfalto, Pedro utiliza um material inusitado, mas extremamente eficaz: pneus reciclados. "A gente tem a preocupação de fazer a coisa diferente. Isso aqui é pneu. O pessoal vai fazer um ensaio de rua, aí vai pro asfalto. Se você não tiver em pneu para poder aguentar, não tem jeito", explica o artesão, destacando a importância da aderência e durabilidade.
Presente em todas as escolas
Embora não produza em grandes quantidades para alas inteiras, o trabalho de Pedro Alberto é onipresente no carnaval carioca. "Acho que todas elas [têm]. Não é aquele montão pra tua escola, mas o nosso sapato tem que estar dentro dessa escola. É rainha, musa, tá tudo aqui", revela o sapateiro com orgulho.
A obsessão pela qualidade se reflete em cada detalhe:
- Palmilhas de alta performance
- Forros resistentes que previnem rasgos
- Saltos reforçados que garantem estabilidade durante todo o desfile
"Sem sandália não tem samba no pé"
Para Pedro, a sandália é o item mais crítico da indumentária de uma passista, chegando a ser considerado mais importante que a própria fantasia. "Você pode pegar uma toalha de praia, amarrar aqui, amarrar ali, mas tem que estar com a sandália boa no pé", afirma com convicção.
O desafio da continuidade
Apesar de ser considerado um patrimônio vivo da cultura carioca, Pedro Alberto enfrenta um desafio comum aos ofícios tradicionais: a dificuldade em transmitir seu conhecimento para as novas gerações. Ele relata que há poucos profissionais qualificados no mercado e que os jovens não demonstram interesse em aprender a arte da sapataria artesanal.
"Eu queria aumentar a minha produção, mas aumentar como, se não tem ninguém?", questiona o artesão, preocupado com o futuro do legado que construiu ao longo de mais de meio século.
A história de Pedro Alberto não é apenas sobre calçados, mas sobre a preservação de um saber tradicional que sustenta um dos maiores espetáculos da cultura brasileira. Enquanto as passistas brilham na avenida, seus pés estão protegidos pelo trabalho minucioso de um artesão que transformou pneus em poesia e técnica em tradição.