Artesão alagoano transforma simples palitos de fósforo em verdadeiras obras de arte
Com um bisturi nas mãos, cola, tinta e uma paciência extraordinária, o artesão Arlindo Monteiro, de 64 anos, realiza uma transformação impressionante: converte simples palitos de fósforo em minúsculas esculturas repletas de detalhes. O trabalho minucioso, que exige precisão cirúrgica e horas de dedicação concentrada, já ultrapassou as fronteiras de Alagoas e ganhou destaque em âmbito nacional, com uma aparição memorável na televisão brasileira.
Da abertura de novela ao reconhecimento internacional
Se você assistiu à novela "Da Cor do Pecado", exibida pela TV Globo em 2004, talvez já tenha contemplado o trabalho de Arlindo Monteiro sem sequer perceber. As miniesculturas utilizadas na abertura da trama foram produzidas por suas mãos habilidosas, a convite do renomado designer Hans Donner, responsável pelas vinhetas da emissora. Arlindo criou versões em palitos de fósforo dos personagens principais da novela, em um trabalho tão detalhado que transportou sua arte de Maceió para milhões de televisores em todo o território nacional.
Conhecido carinhosamente como "Arlindo dos Palitos", ele é considerado uma verdadeira referência no tipo de arte que produz, uma modalidade rara no Brasil: miniesculturas entalhadas em palitos de fósforo. Ao longo de sua carreira, já criou aproximadamente 50 mil peças, que se encontram espalhadas não apenas pelo Brasil, mas também por diversos outros países. "É gratificante para qualquer profissional com 50 anos de arte ser chamado de mestre", revela o artesão com orgulho.
O processo criativo e a paixão pelo ofício
No ateliê improvisado nos fundos de sua residência, o processo criativo exige concentração total. Cada escultura nasce a partir de cortes delicados realizados com bisturi, onde de um único palito emergem figuras como flores, pássaros, santos e personagens da cultura popular. Arlindo confessa que, frequentemente, perde completamente a noção do tempo enquanto se dedica ao trabalho. "Às vezes a minha mulher vem aqui e diz: 'rapaz, você já viu que horas são?' Eu respondo: 'rapaz, eu não estou preocupado com hora não'", conta com um sorriso.
Entre as peças que produz com maestria estão representações de santos como São Francisco de Assis, São Miguel Arcanjo e São Jorge, além de cenas do cotidiano e retratos de artistas consagrados. Algumas esculturas prestam homenagem a nomes importantes da música e do esporte brasileiro, demonstrando a versatilidade de seu talento.
Uma trajetória marcada por dedicação e sonhos
Natural de Bezerros, em Pernambuco, Arlindo vive em Maceió há aproximadamente 40 anos. Sua relação com o artesanato começou ainda na infância. Filho de um sapateiro e uma costureira, ele cresceu auxiliando o pai no ofício. A habilidade manual já se manifestava durante os anos escolares: "Quando tinha trabalho de colégio, todo mundo queria ficar comigo porque eu fazia os desenhos. Eu já me destacava", recorda.
Antes de encontrar sua vocação nos palitos de fósforo, Arlindo experimentou diversas formas de expressão artística, incluindo pintura em tela e esculturas feitas com troncos de coqueiro. Porém, a mudança definitiva ocorreu há 36 anos, quando um sonho profético direcionou seu trabalho artístico: "A primeira peça que eu fiz foi um Cristo crucificado. Eu sonhei, vi um Cristo talhado em um palito de fósforo". Desde então, os palitos se transformaram na principal matéria-prima de seu ofício.
Reconhecimento além das fronteiras e a luta pela valorização local
Atualmente, Arlindo divide seu tempo entre o espaço de trabalho montado em casa e o Mercado do Artesanato de Maceió, onde expõe e comercializa suas peças. Apesar do reconhecimento internacional e das exposições realizadas em países como Chile e Argentina, onde representou Alagoas com orgulho, ele observa que a arte manual ainda precisa ser mais valorizada em seu próprio estado. "Aqui em Maceió o nosso trabalho é muito mais valorizado pelo pessoal de fora do que pelo pessoal daqui. Tem muita gente que mora aqui e nunca foi ao Mercado do Artesanato", lamenta.
Após 51 anos dedicados ao artesanato, ele continua produzindo novas peças diariamente, movido por uma paixão genuína. "Eu acho que a grande vantagem de você fazer qualquer coisa é fazer porque ama. Aqui eu amo o que faço. Faço uma peça, fico namorando ela e digo: 'meu amigo, você fez uma peça muito top'. Aí passa um tempo e eu digo: 'vou fazer outra melhor'", compartilha com entusiasmo.
Entre palitos minúsculos e esculturas delicadas, o artesão segue ascendendo degrau por degrau em sua própria trajetória, mantendo um pedido simples: "O que eu peço a Deus é somente sanidade e saúde, para viver com dignidade do que faço". Sua história é um testemunho inspirador de como a dedicação e o amor por uma arte podem transformar materiais simples em legados duradouros.



