Grupo Corpo leva balé sobre protestos femininos ao palco da Filarmônica de Los Angeles
O renomado Grupo Corpo está realizando uma série de apresentações especiais no prestigiado Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, nos Estados Unidos, que se estendem até este domingo (1). O destaque da temporada é a estreia do novo balé "Revolución Diamantina", criado especialmente para a ocasião e que já está sendo considerado um dos trabalhos mais desafiadores da história da companhia.
Uma trilha musical complexa e cheia de significado
A música escolhida para embalar a nova coreografia é "Revolución Diamantina", composição da mexicana Gabriela Ortiz que se mostrou um verdadeiro desafio para os artistas. Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo com impressionantes 50 anos de experiência, não escondeu as dificuldades: "A música é muito estranha [...] Eu tomei uma surra danada dela", confessou.
Pederneiras revelou que esta foi a trilha mais difícil de sua carreira e que só conseguiu decifrar sua complexa contagem com a ajuda fundamental de Cassi Abranches, com quem divide a autoria da coreografia. Além dela, o coreógrafo contou com o apoio das ensaiadoras da companhia e do talentoso bailarino Rafael Bittar, que possui experiência com partituras musicais.
"Eu estudei violão a vida inteira e piano recentemente, então eu entendo um pouco de partitura, né? Então ela auxiliou muito pra gente entender a música, porque se eu contar do jeito que a gente conta para um músico, ele vai falar assim: cês piraram, né?", explicou Bittar sobre sua contribuição essencial no processo criativo.
Inspiração nos protestos femininos mexicanos
A explicação para a complexidade musical está profundamente ligada ao seu significado. Gabriela Ortiz compôs a peça especificamente para traduzir musicalmente os poderosos protestos que eclodiram em 2019 na Cidade do México, manifestações que denunciavam a violência contra as mulheres e que ficaram conhecidas como Revolução da Purpurina ou Revolução do Glitter.
"De forma muito poderosa as mulheres foram às ruas, mas ao mesmo tempo com muito poder, pacificamente porque elas jogavam glitter no enfrentamento aos policiais, ao movimento que estava acontecendo de tensão", recorda Cassi Abranches sobre os eventos que inspiraram a criação.
Para traduzir esses protestos em movimento, Rodrigo e Cassi optaram por uma abordagem não literal, levando para o palco códigos e gestos pontuais do movimento feminista, criando uma linguagem corporal que dialoga diretamente com a temática social.
Figurino que conta uma história
O visual do espetáculo, criado pelos talentosos Marcelo Alvarenga e Suzana Bastos, também mergulha profundamente na temática mexicana e feminista. "A gente foi no México pra buscar algumas referências [...] porque nos interessava um pouco da exuberância que o México tem na sua cultura, então a gente foi nas cores, tem uma coisa do floral", explicou Marcelo.
Porém, os figurinistas enfrentaram o desafio de equilibrar a exuberância cultural mexicana com a seriedade do tema. "Porém fomos atualizando um pouco, porque num determinado momento, a gente percebeu que esse México muito folclórico, muito talvez fosse alegre demais pra um tema tão violento", complementou.
Uma apresentação histórica no Walt Disney Concert Hall
A estreia do novo balé aconteceu na última quinta-feira (27) no icônico Walt Disney Concert Hall, sede da Orquestra Filarmônica de Los Angeles. O espetáculo apresentou uma configuração incomum: músicos e bailarinos compartilharam o mesmo palco durante toda a apresentação.
"A apresentação é junto com a orquestra e não é o caso da orquestra no fosso e os bailarinos no palco, estão todos no palco. Então é muito especial", destacou Paulo Pederneiras, diretor artístico do Grupo Corpo.
Esta disposição inovadora apresentou um desafio adicional para os figurinistas: a impossibilidade de troca de roupa durante os 40 minutos de apresentação. A solução criativa foi desenvolver figurinos que pudessem ser transformados durante o espetáculo.
"Como vai dançar na Filarmônica, não tem troca de roupa, não tem coxia, e são 40 minutos de uma trilha forte. O figurino tinha que acompanhar essa história da trilha, sem ilustrar, mas de alguma forma, acompanhar. E nisso a gente falou: já que não pode trocar de roupa, vamos pensar em alguma coisa que possa tirar. E dessa vez a gente pensou muito nessa coisa do soutien, do top, que é um emblema feminino, feminista, né?", revelou Suzana Bastos sobre o processo criativo.
Uma encomenda especial de Gustavo Dudamel
A criação de "Revolución Diamantina" foi uma encomenda especial do renomado maestro da Filarmônica de Los Angeles, o venezuelano Gustavo Dudamel, que este ano se despede do posto para assumir a direção da Filarmônica de Nova York.
Esta marca a segunda colaboração entre Dudamel e o Grupo Corpo nos Estados Unidos. Em 2023, as duas companhias já haviam criado juntas o espetáculo "Estância", com música do argentino Alberto Ginastera, que estreou no Hollywood Bowl para um público impressionante de aproximadamente 17 mil pessoas.
A parceria entre a consagrada companhia brasileira de dança e uma das orquestras mais prestigiadas do mundo continua rendendo frutos artísticos significativos, fortalecendo os laços culturais entre o Brasil e a cena artística internacional.



