Elisa Lucinda celebra quatro décadas no Rio de Janeiro com o show 'Ensaio para uma ideia, o improviso da griô'
A atriz, poeta e cantora Elisa Lucinda está em cartaz no clube carioca Manouche, nos domingos de maio, com o espetáculo 'Ensaio para uma ideia, o improviso da griô'. O show marca os 40 anos de sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1986, quando deixou a carreira de jornalista em Vitória (ES) para se dedicar às artes.
Com direção musical do duo Cafuzø, formado por Glaucus Linx (saxofone) e Sandro Lustosa (percussão), Lucinda apresenta um 'show-poema' que mistura música, poesia e narrativas. Inspirada nos griôs africanos, contadores de histórias que cantam e encantam, a artista recita poemas próprios e de autores como Fernando Pessoa, Hilda Hilst e Mia Couto, além de interpretar canções de compositores como Billy Blanco, Chico César, Gilberto Gil e Vitor Martins.
Na estreia, em 3 de maio, o espetáculo mostrou-se prolixo em alguns momentos, mas sedutor pela riqueza do material poético e pela presença cênica de Lucinda. A artista, que é também ativista, aborda temas como misoginia e racismo com altivez e humor mordaz. Um dos pontos altos foi o samba 'A banca do distinto' (Billy Blanco), que criticou o racismo estrutural de forma espirituosa.
O repertório incluiu desde 'Fruta Gogoia', do folclore baiano, até sucessos como 'O canto da cidade' (Daniela Mercury) e 'Eu sou negão' (Gerônimo Santana), que exaltam a negritude. Lucinda também emocionou ao recitar 'Consagração da criatura', poema dedicado ao filho, e ao cantar '40 anos' (Altay Veloso), que soou como uma retrospectiva vitoriosa de sua trajetória.
Como intérprete, Lucinda realçou a aridez de 'Béradero' (Chico César) e o tom caipira de 'Promessa de violeiro' (Raul Torres e Celino), mas não conseguiu transmitir toda a melancolia de 'Olhos de azeviche' (Jaguarão), imortalizado por Clementina de Jesus. Apesar disso, a palavra poética e musical imperou no show, que atesta a força de Lucinda como artista completa.



