Tartarugas-cabeçudas como 'Jorge' retornam à Baía de Guanabara em Magé
Tartarugas-cabeçudas voltam à Baía de Guanabara

Nos últimos meses, a paisagem do Píer da Piedade, em Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ganhou novos protagonistas: as tartarugas-cabeçudas. Pescadores e biólogos observam um aumento atípico dessa espécie na Baía de Guanabara, algo nunca antes registrado em 15 anos de atuação do Projeto Aruanã, que monitora tartarugas marinhas em Itaipu, Niterói.

Parceria com pescadores impulsiona monitoramento

O Projeto Aruanã entra em nova fase, ampliando sua atuação para o litoral de Magé e iniciando a marcação dos animais. A bióloga Larissa Araújo, coordenadora de campo, destaca a cooperação com pescadores artesanais como fundamental. “A gente já tem uma história de parceria com os pescadores artesanais em Itaipu e agora está ampliando para a Baía de Guanabara. Com o apoio deles, estamos conseguindo acessar a tartaruga-cabeçuda e iniciar um novo processo de marcação dessa espécie que está aparecendo aqui dentro da baía”, afirma.

Técnicas de pesca tradicionais auxiliam na captura

A captura dos animais ocorre com o apoio de técnicas tradicionais de pesca. Em Itaipu, o projeto utiliza o arrasto de praia e equipamentos específicos. Em Magé, a novidade é o uso do “curral de peixe” — uma estrutura fixa que funciona como um funil no mar. No curral, os peixes entram por aberturas largas e seguem por compartimentos até ficarem retidos. As tartarugas, maiores, não chegam ao final e acabam permanecendo em áreas intermediárias, onde podem ser resgatadas sem ferimentos. “Não tem rede, não tem nada que machuque elas. Elas entram, se alimentam e a gente consegue observar e depois soltar”, explica o pescador João, que trabalha com a técnica há décadas.

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Foi nesse tipo de estrutura que o pescador Uallace Santos começou a resgatar tartarugas-cabeçudas. Ele relata que o primeiro registro foi em julho de 2025. “Eu comecei a registrar tudo porque pescador tem fama de mentiroso. Se não tiver como provar, ninguém vai acreditar em você”, conta.

Tartaruga Jorge, a 'pioneira'

De acordo com os relatos, o aumento no número de tartarugas coincidiu com a passagem de um animal que ganhou notoriedade: a tartaruga-cabeçuda Jorge, monitorada por satélite após ser solta na Argentina depois de décadas em cativeiro. “A gente não teve mais notícia do Jorge, mas a gente já está até brincando que ele chamou a turma dele para entrar na Baía de Guanabara também, que aqui é o local que está bem legal para eles virem morar”, brinca a bióloga. O sinal do transmissor indicou que o animal chegou à Baía de Guanabara, onde permaneceu por cerca de uma semana antes de desaparecer. “Pode ser falha no equipamento, pode ser a bateria que acabou, pode ser porque perdeu mesmo o equipamento, vários motivos... É esperado mesmo, esse transmissores têm uma vida útil e eles não duram para sempre”, diz Larissa.

Motivo da migração é desconhecido

Para os pesquisadores, ainda não é possível afirmar por que a espécie, considerada mais oceânica, passou a frequentar a baía. Uma das hipóteses é a oferta de alimento. “A Baía de Guanabara é riquíssima. Tem camarão, que é um dos alimentos preferidos delas. A presença dessa espécie aqui levanta várias perguntas sobre o que está atraindo esses animais”, diz Larissa.

Início do monitoramento

No último fim de semana, duas tartarugas-cabeçudas foram capturadas, medidas e marcadas pelo projeto — as primeiras desse tipo na região. Os animais, com cerca de 80 centímetros de casco, podem ter entre 15 e 20 anos. A expectativa dos pesquisadores é que o monitoramento permita entender a origem e o comportamento dessas tartarugas, inclusive com estudos genéticos. Enquanto isso, a rotina no mar segue com novos encontros. Já foram pelo menos oito registros recentes, alguns acompanhados por moradores e até crianças, levadas pelos pescadores para ver de perto os animais antes da soltura. “Podem contar comigo para salvar essas tartarugas. A gente vai continuar resgatando e soltando”, diz Uallace.

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