Estudantes registram raro sapo-flamenguinho em expedição no Parque Nacional de Itatiaia
Sapo-flamenguinho é registrado por estudantes no Itatiaia

Uma viagem impulsionada pela curiosidade científica, pela paixão pela natureza e pela disposição para enfrentar desafios resultou em imagens raras de um dos anfíbios mais emblemáticos da Serra da Mantiqueira: o sapo-flamenguinho (Melanophryniscus moreirae). O registro foi realizado por dois estudantes de biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) durante uma expedição ao Parque Nacional de Itatiaia (RJ), em dezembro de 2025.

Expedição em busca do sapo-flamenguinho

Arthur Fernandes e Breno Lucas de Souza, colegas de curso, compartilham o interesse pela vida selvagem, cada um com seu enfoque. Enquanto Breno é mais voltado à herpetologia, Arthur encontrou na fotografia de natureza uma forma de explorar e registrar a biodiversidade brasileira. “Eu já tinha um Instagram de fotografia e vídeo de vida selvagem. Sempre que vou para o mato, gosto de registrar o que encontro”, conta Arthur.

A ideia da viagem surgiu com um objetivo claro: encontrar o sapo-flamenguinho em seu período reprodutivo. “Dezembro é época de chuva, mas também é quando eles estão se reproduzindo. Pensei que seria uma boa oportunidade para tentar fotografar comportamentos mais raros, como o acasalamento”, explica.

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Entre trilhas e silêncio: o encontro com o anfíbio

A dupla saiu do interior de São Paulo rumo ao Rio de Janeiro e seguiu até a parte alta do parque, uma das regiões mais preservadas da unidade de conservação. Entre trilhas, mata de altitude e clima instável, a busca exigiu paciência. “A gente entrou um pouco mais na mata e começou a encontrar os primeiros indivíduos. A partir daí, foi tentar chegar perto sem interferir, mexendo o mínimo possível, para conseguir boas imagens”, relembra. O esforço valeu a pena: Arthur e Breno conseguiram registrar momentos raros, incluindo vídeos do comportamento reprodutivo do anfíbio.

O 'perrengue' que virou história

Nem tudo, porém, saiu como planejado. A experiência de campo trouxe desafios típicos de quem se aventura na natureza. “A gente acampou, mas pegamos um temporal de madrugada. Entrou água na barraca, molhou tudo. Passamos frio e tivemos que voltar antes do previsto”, conta Arthur. Mesmo com o contratempo, a viagem cumpriu o objetivo de observar e documentar uma espécie difícil de encontrar, e ainda mais difícil de registrar em atividade.

Nome, fisiologia e ameaças

Para entender melhor a biologia e os desafios da espécie, consultamos o herpetólogo Willianilson Pessoa. Logo no nome científico Melanophryniscus moreirae, há uma curiosidade: “No latim, quando o nome termina em ‘i’, geralmente é uma homenagem a um homem. Quando termina em ‘ae’, é para mulheres. O moreirae, nesse caso, indica uma homenagem feminina com o sobrenome Moreira”, explica.

Estratégias para sobreviver ao frio

Um dos aspectos mais impressionantes do sapo-flamenguinho é sua capacidade de sobreviver às condições extremas da parte alta do Parque Nacional de Itatiaia, onde as temperaturas podem chegar a valores negativos. Durante os meses mais frios, o animal entra em estado de dormência, permanecendo imóvel em pequenos abrigos no solo. “Eles acumulam gordura e glicose durante o período ativo. Isso funciona como reserva energética. Ao mesmo tempo, reduzem drasticamente o metabolismo, mantendo apenas o essencial para continuar vivos”, afirma o herpetólogo. Esse processo envolve adaptações como redução do consumo de oxigênio, diminuição da atividade metabólica e liberação de muco na pele, que ajuda a proteger o corpo e evitar a perda de água.

Clima e reprodução: um equilíbrio delicado

A reprodução do sapo-flamenguinho depende diretamente das chuvas e da formação de poças temporárias, um sistema altamente sensível às mudanças ambientais. “Pequenas alterações de temperatura já fazem muita diferença. Um aumento de poucos graus pode afetar desde a formação das poças até o desenvolvimento dos ovos, que são muito sensíveis”, explica. Além disso, há um efeito em cadeia: as mudanças no clima impactam também os insetos que servem de alimento para a espécie. “Se as presas não aparecem no momento certo, o sapo também sofre. Mesmo que o ambiente pareça adequado, sem alimento ele entra em declínio”.

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Pressão humana e caminhos para conservação

Mesmo dentro de uma unidade de conservação, o sapo-flamenguinho enfrenta ameaças como queimadas, turismo desordenado e acesso irregular. Para o especialista, a solução passa por fiscalização, educação ambiental e envolvimento das comunidades locais. “A conservação precisa incluir quem vive no entorno. A ciência cidadã é fundamental. Quando a população participa, os resultados aparecem”. Ele também destaca o papel da espécie como “guarda-chuva”: “Ao proteger o sapo-flamenguinho, a gente protege todo o ambiente onde ele vive”.

Pequeno, raro e exclusivo do Itatiaia

O sapo-flamenguinho é uma espécie endêmica da Serra da Mantiqueira, com ocorrência restrita ao Parque Nacional de Itatiaia, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo. Com cerca de 2 a 3 centímetros de comprimento, vive em campos de altitude acima dos 2.400 metros, geralmente próximo a áreas alagadas e de águas frias e limpas. É um animal diurno, mas extremamente discreto. Seu ciclo de vida está diretamente ligado ao regime de chuvas. Os ovos são depositados em poças temporárias, e a reprodução ocorre nos meses mais úmidos, entre setembro e abril. Já no inverno, com frio intenso e seca, o sapo entra em dormência e praticamente desaparece da paisagem. Apesar de já ter sido considerado ameaçado, hoje o status da espécie é classificado como quase ameaçado, com tendência populacional estável. Ainda assim, sua distribuição extremamente limitada o torna vulnerável a qualquer alteração ambiental.