Ibama encerra atividades do último criadouro de macacos-prego do Brasil em Santa Catarina
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou a desativação definitiva do que era considerado o último criadouro de macacos-prego em operação no território nacional. Localizado no município de Xanxerê, na região Oeste de Santa Catarina, o estabelecimento vinha funcionando sob liminar judicial há mais de uma década, mas foi fechado após a constatação de graves situações de maus-tratos aos animais.
Condições deploráveis e violações flagrantes
A ação fiscalizatória, concluída nesta semana e divulgada na sexta-feira (10), revelou um cenário alarmante. Os macacos-prego foram encontrados em estado de desnutrição evidente, apresentando estresse crônico e privados completamente do acesso à luz solar natural. Uma das práticas mais condenadas identificadas pelos fiscais era a separação precoce dos filhotes de suas mães, comprometendo o desenvolvimento emocional e social dos animais.
Além dos macacos-prego, o criadouro também comercializava saguis e outras espécies da fauna brasileira. Durante os anos de operação, o estabelecimento declarou a venda de 240 primatas, sendo 86 macacos-prego e 154 saguis, evidenciando o caráter comercial da atividade.
Resistência do proprietário e operação de resgate
Para a retirada dos 26 macacos-prego que ainda permaneciam no local, foi necessário expedir mandado judicial, já que o proprietário criava obstáculos sistemáticos às equipes de fiscalização. Esta não foi a primeira intervenção no criadouro: no ano anterior, já haviam sido retirados 167 animais, incluindo 126 aves e 41 primatas, encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres em Brasília, Lorena (SP) e Porto Alegre.
Uma das fiscais envolvidas na operação, que teve sua identidade preservada pelo Ibama, descreveu a realidade encontrada: "O criadouro funcionava apenas para a reprodução dessas espécies, visando o lucro com a exploração desses animais, tratando-os como meras mercadorias".
Maus-tratos sistemáticos e consequências graves
As irregularidades constatadas incluíam condições que configuram maus-tratos de forma sistemática:
- Gaiolas excessivamente pequenas que impediam movimentos básicos como escalada
- Desnutrição generalizada entre os animais
- Estresse crônico com manifestações comportamentais graves
- Privação completa de luz solar
- Separação precoce entre mães e filhotes
A fiscal detalhou ainda mais as condições: "Esses macacos apresentavam alto grau de comportamento típico de estresse, de cativeiro inadequado. O manejo desses animais era feito na base do terror, com jatos d'água de alta pressão. Todos tinham sintomas de aversão a pessoas, demonstrando um medo exacerbado".
O estresse era tão intenso que os animais já não desenvolviam mais comportamentos naturais da espécie, como a estruturação hierárquica de grupos, fundamental para primatas sociais como os macacos-prego.
Nova vida em ambiente adequado
Com o resgate bem-sucedido, os 26 macacos-prego foram encaminhados para uma instituição especializada em reabilitação de animais silvestres. No novo ambiente, eles terão acesso a espaços amplos com terra, vegetação adequada e estruturas para escalada, além de receberem nutrição balanceada e exercícios específicos para recuperação.
"Daqui pra frente, no novo lar, eles terão a oportunidade de compor bandos e viver socialmente, o que é fundamental para qualquer primata", afirmou a fiscal do Ibama.
Apoio institucional e alerta sobre domesticação
A operação contou com o apoio logístico da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para o transporte dos animais, além da colaboração do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC), da Polícia Militar Ambiental e de outras instituições parceiras.
O Ibama reforça que a criação de macacos-prego como animais de estimação não é recomendada pelos órgãos ambientais, pois o ambiente doméstico é inadequado para essas espécies, comprometendo seus comportamentos naturais e frequentemente resultando em manejo abusivo, maus-tratos e riscos sanitários significativos.
A cassação da liminar que permitia o funcionamento do criadouro ocorreu em 2024, quando o Ibama iniciou o processo de desativação definitiva do estabelecimento, marcando o fim de mais de uma década de exploração animal na propriedade catarinense.



