Biológa transforma residência em refúgio para fauna silvestre resgatada na Fronteira Oeste
Um quarto adaptado com janelas teladas abriga dois falcões que perderam uma perna cada, mamadeiras com leite especial alimentam um filhote de veado-campeiro, e noites inteiras são dedicadas ao aquecimento de ninhadas de gambás órfãos. Essas cenas fazem parte do cotidiano da bióloga Mariana Costa, residente em Alegrete, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, que desde 2018 mantém uma parceria voluntária com a Patrulha Ambiental (Patram) e converte sua própria casa em um centro de reabilitação provisório para animais silvestres.
Iniciativa nasceu de forma espontânea e tornou-se apoio fundamental
Mariana, formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), retornou ao município e começou a receber animais debilitados ou machucados que vizinhos e conhecidos encontravam. "O conhecimento acadêmico e o amor pelos animais fizeram com que as pessoas me procurassem naturalmente", relata a bióloga. Com o tempo, essa iniciativa espontânea evoluiu para um suporte essencial à Patram local, que frequentemente resgata animais necessitando de cuidados intensivos, mas carece de estrutura para atendimento contínuo, 24 horas por dia.
O sargento Rui Dias, da Patram de Alegrete, enfatiza a importância crítica do trabalho de Mariana, destacando que a expansão urbana sobre áreas rurais tem tornado a interação com a fauna inevitável, elevando a demanda por resgates. "Quando uma caturrita é apreendida em cativeiro, não sabemos a idade, se tem condições de ser reintroduzida ou se está domesticada. Precisamos de alguém que faça essa avaliação imediatamente para não prejudicar os animais", explica o militar.
Logística desafiadora e improvisação criativa
Um dos principais obstáculos é a logística para encaminhamento a centros especializados. "O Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) mais próximo fica em Santa Maria, a aproximadamente três horas daqui", detalha Mariana. "Era praticamente um pedido de ajuda por semana. A Patram precisa de autorização do Estado para deslocar a viatura e não conseguiria estar, uma vez por semana, levando filhotes para Santa Maria", complementa.
Para receber seus "pacientes", a bióloga improvisa e adapta os espaços de sua residência. Atualmente, os dois falcões, que chegaram filhotes e extremamente debilitados, ocupam um quarto exclusivo. "Eu adaptei esse quarto, coloquei tela nas janelas, que ficam sempre abertas. Eles tomam banho na chuva, têm contato com a natureza", descreve. Inicialmente, Mariana duvidava da sobrevivência dos falcões. "Eu disse aos policiais: 'Vou receber, mas quero deixar bem claro que possivelmente os dois venham a óbito'. No dia seguinte, já estavam muito melhores. Foi uma alegria".
Diversidade de espécies e cuidados especializados
Aves representam a maioria dos animais atendidos, com picos de resgates durante o período reprodutivo, entre setembro e janeiro. Contudo, a lista de espécies é ampla e variada:
- Ninhada de oito gambás órfãos, cuja mãe foi morta por cães, exigindo noites intensas de aquecimento e alimentação com leite sem lactose.
- Filhotes de graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), conhecido regionalmente como sorro.
- Filhote de veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), que demandou uma dieta especial com quatro mamadeiras diárias de leite natural e transição cuidadosa para alimentação sólida.
O objetivo primordial é sempre a reabilitação para retorno ao habitat natural. Quando um animal está apto, a própria Mariana realiza a soltura, momento que considera dos mais gratificantes. "É muito gratificante poder fazer a soltura de um animal que eu passei noites em claro, de duas em duas horas aplicando uma medicação, e saber que ele voltou pra natureza e vai cumprir seu papel", emociona-se.
Envolvimento comunitário e apelo à população
A comunidade local também se engaja nessa causa. O filhote de veado criado por Mariana foi solto em uma propriedade rural cujo proprietário, sensibilizado pela história, ofereceu a área, livre de caça e com mata preservada. Embora não busque divulgação, a bióloga acredita que a repercussão positiva de seu trabalho pode inspirar mais pessoas a ajudarem. "A gente precisa do apoio da população para que, se vir um animal na estrada, dê uma segurada. Se encontrar um animal precisando de ajuda, chame o órgão competente", conclui.
Como acionar a Patram: Para solicitar resgate da Patrulha Ambiental da Brigada Militar ou órgãos ambientais similares para animais silvestres feridos ou em local inadequado, ligue para o 190 (Polícia Militar). No Rio Grande do Sul, o resgate de fauna pode ser acionado via telefone funcional 51 98593-1288 (WhatsApp/ligação) ou fixos 3288-7434 e 3288-7430 em horário comercial.
Recomendações importantes:
- Não toque no animal silvestre para evitar acidentes e estresse.
- Mantenha a calma e observe o comportamento do animal.
- Informe o endereço exato e detalhes sobre a situação do animal ao telefonar.
