A viúva do produtor rural morto durante uma ação da Brigada Militar (BM) na zona rural de Pelotas, na madrugada de quinta-feira (15), descreveu cenas de violência e humilhação durante a abordagem. Raquel Nornberg afirmou que, devido à truculência e ao linguajar utilizado, acreditou estar diante de bandidos, e não de policiais.
"Jamais imaginei que era polícia", diz viúva sobre abordagem
Raquel Nornberg, companheira de Marcos Nornberg, de 48 anos, relatou que o casal dormia quando ouviu movimentação no pátio da propriedade, localizada na Estrada da Cascata. O produtor saiu para verificar o que acontecia, momento seguido por gritos e disparos. Marcos foi morto no local.
"A gente achou que era bandido, a gente jamais imaginou que era polícia", contou Raquel. Ela detalhou que os agentes não se identificaram como policiais nem explicaram o motivo da operação. "Abriram meu roupão, debocharam de mim, mandaram eu me ajoelhar em cima do lugar que estava cheio de caco de vidro", descreveu, referindo-se aos estilhaços de uma janela atingida por tiros.
A mulher disse que evitou contato visual com os homens e só percebeu que se tratava de policiais militares depois de observar os uniformes. Mesmo após a identificação do casal, os PMs teriam desacreditado os nomes fornecidos por eles.
Busca por paz termina em tragédia familiar
Marcos Nornberg havia se mudado de Caxias do Sul para Pelotas em busca de tranquilidade. Na propriedade rural, ele e a família eram responsáveis pelo cultivo de morango e milho doce, produtos vendidos posteriormente em feiras da região. O produtor assumiu a liderança da produção familiar depois que o pai perdeu um dos braços devido a um câncer.
"Não consigo entender que a polícia faça uma ação dessas e trate pessoas do bem como criminosas. É uma dor que tu não tem noção. Eu tô devastada, eu não tô acreditando ainda", desabafou Raquel Nornberg.
Investigações e pedido de apuração rigorosa
A Polícia Civil confirmou que se tratava de uma ação da Brigada Militar e informou que os agentes estavam em busca de uma quadrilha na região. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios de Pelotas.
Diante do ocorrido, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, pediu uma "rigorosa apuração" sobre a conduta dos policiais. "O importante é que haja sempre uma Corregedoria com força para fazer a investigação. Ainda merece abertura de processos internos para apurar em que condições essa atuação se deu", declarou.
Leite também fez um comentário geral sobre a corporação: "São homens e mulheres, são seres humanos que buscam sempre acertar. Nem sempre, eventualmente, acertam, mas na maior parte das vezes acertam e tem todo o nosso crédito". A comunidade aguarda os desdobramentos das investigações sobre a ação policial que terminou em tragédia.