Imagens de câmera corporal revelam morte de mulher baleada por PM e demora de 30 minutos no resgate
Câmera corporal mostra morte de mulher baleada por PM e resgate lento

Imagens exclusivas de câmera corporal revelam ação policial fatal e demora crítica no socorro

Gravações inéditas obtidas de câmeras corporais da Polícia Militar de São Paulo expõem os momentos que antecederam a morte de Thawanna Salmázio, de 31 anos, baleada durante uma abordagem na madrugada do dia 3 de abril na Zona Leste da capital paulista. As imagens, que mostram detalhes da ocorrência, também evidenciam uma demora superior a trinta minutos na chegada do resgate médico, tempo que excedeu significativamente as metas estabelecidas pela própria corporação para atendimentos de emergência.

Sequência fatal capturada em vídeo

De acordo com as gravações, o incidente começou por volta das 2h58 na Rua Edimundo Audran, na Cidade Tiradentes, quando o retrovisor da viatura policial atingiu Luciano Gonçalves dos Santos, marido de Thawanna, que caminhava ao lado dela. O soldado Weden Silva, que dirigia o veículo e utilizava a câmera corporal, parou o carro, deu marcha a ré e iniciou uma discussão com o casal, proferindo ofensas.

Thawanna respondeu afirmando que os policiais haviam batido neles, momento em que a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura e se dirigiu à mulher. Durante a discussão, Thawanna disse: “Você não aponta o dedo em mim, não”. Pouco depois, às 2h59, um disparo foi ouvido, atingindo Thawanna no peito.

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Nas imagens, Weden pergunta a Yasmin se ela atirou, ao que a soldado respondeu justificando: “Ela deu um tapa na minha cara”. Luciano, porém, negou a agressão. A câmera corporal não capturou o momento exato do tiro, pois Weden estava atrás da viatura discutindo com Luciano quando o disparo ocorreu na parte dianteira do veículo.

Demora alarmante no atendimento médico

Após o disparo, Weden acionou o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) para solicitar resgate, aproximadamente 40 segundos após o tiro. No entanto, a ambulância do Corpo de Bombeiros chegou ao local apenas às 3h29, mais de trinta minutos depois do acionamento. Thawanna foi socorrida e levada a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

Investigou-se que havia unidades do Corpo de Bombeiros próximas ao local da ocorrência. A base mais próxima, situada na Avenida dos Metalúrgicos, 678, em Cidade Tiradentes, está a cerca de seis minutos de distância, enquanto a segunda mais próxima, na Rua Luís Mateus, 1.000, em Guaianases, fica a aproximadamente treze minutos. Essas estimativas foram calculadas com base no aplicativo Waze, considerando o mesmo horário da ocorrência, por volta das 3h, quando o fluxo de veículos é baixo.

Meta da PM não cumprida

O Guia de Indicadores 2020-2023 da Polícia Militar estabelece como meta que atendimentos de emergência sejam realizados em até vinte minutos, tanto pela PM quanto pelo Corpo de Bombeiros. No caso de Thawanna, o tempo de resposta superou em pelo menos dez minutos esse limite. Documentos da corporação indicam que, em 2019, apenas 58% das ocorrências atendidas pelos Bombeiros ficaram dentro do intervalo de vinte minutos, com uma meta de atingir 60%.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi questionada sobre a demora no atendimento e a dinâmica do resgate, incluindo o local de onde partiu a ambulância e o tempo oficial entre acionamento e chegada. A pasta não detalhou esses pontos, afirmando apenas que o caso está sob investigação pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar, com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas.

Análise das imagens e contexto da ocorrência

As gravações da câmera corporal mostram que os policiais haviam ido ao local para acompanhar uma moto com suspeitos, que acabaram perdendo de vista. A calçada da Rua Edimundo Audran é estreita, com menos de um metro de largura, o que leva moradores a usarem a via para se deslocar, contexto que pode ter contribuído para o atropelamento inicial.

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Após o disparo, as imagens registram a preocupação crescente dos policiais com o estado de Thawanna. Por volta das 3h16, Weden observou que a vítima estava “ficando branco já” e cobrou a chegada do resgate. Em conversas com outros policiais que chegaram para dar apoio, Weden explicou repetidamente a ocorrência, justificando a ação de Yasmin ao alegar que Thawanna havia dado um tapa em seu rosto e estava indo em sua direção.

No entanto, em um momento posterior, às 3h27, Weden disse a Yasmin: “Não era pra ter atirado não, mas... ter atirado porque ela vim pra cima de você, te bater, pegar sua arma”, sugerindo uma possível reconsideração sobre a legitimidade do disparo.

Desfecho e investigações em andamento

Às 3h30, a ambulância finalmente chegou, e Thawanna foi colocada na maca por volta das 3h35. Ela foi transportada para um hospital, onde veio a falecer. Os dois policiais envolvidos, Weden Silva e Yasmin Cursino Ferreira, foram afastados das atividades operacionais. A arma de Yasmin foi recolhida por um policial militar de plantão que atua para a Justiça Militar (PPJ).

Yasmin não estava usando câmera corporal durante a ocorrência, pois era novata e ainda não teria recebido senha para operar o equipamento. As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise, integrando o conjunto probatório do caso. A SSP afirmou que todas as provas, incluindo laudos periciais e depoimentos, estão sendo analisadas com rigor, e o Corpo de Bombeiros também apura o tempo de resposta no socorro da vítima.

Este caso levanta questões críticas sobre protocolos de atendimento de emergência e o uso de força por agentes de segurança, destacando a necessidade de transparência e responsabilidade nas ações policiais.