Vítima de tortura em Itapetininga inicia processo de remoção de tatuagens forçadas
Jackeline Barbosa, de 28 anos, vítima de agressões e tortura pelo ex-companheiro Guilherme Henrique Amaral Andriolo, de 32 anos, deu início ao processo de remoção das tatuagens que ele a obrigou a fazer. O crime ocorreu em abril deste ano em Itapetininga (SP). Guilherme está preso na Penitenciária II de Sorocaba desde 22 de abril.
Em entrevista ao g1, Jackeline relatou que precisou ser internada mais de uma vez após as agressões. Ela sofreu fraturas em três costelas e continua em acompanhamento médico, utilizando analgésicos fortes. "Depois que ele foi preso em flagrante, fui ao IML para ver a situação do meu corpo. O exame apontou lesão corporal gravíssima, incluindo fissura anal. Durante as internações, tomei tramal, medicação na veia e muito soro", conta.
Após a alta, Jackeline voltou a sentir dores intensas e foi internada novamente. Exames revelaram fraturas na 10ª, 11ª e 12ª costelas. "A gente sente quando é algo diferente no corpo. Meu nariz doía muito, mas sabia que colaria sozinho. Não conseguia dormir de tanta dor na costela", lembra.
Além das sequelas físicas, ela enfrenta impactos psicológicos. "Não durmo direito, toda hora sonho que ele está atrás de mim e vai me matar. Não consigo chorar, não tenho reação. A psicóloga disse que é um mecanismo de proteção do cérebro. Parece que estou contando a história de outra pessoa", desabafa.
Apoio familiar e tratamento
Jackeline destaca o suporte da família e o acolhimento na Casa da Mulher e no Caps, onde realiza acompanhamento psicológico e médico. "Estou me tratando, fiz exames de sangue, colesterol e tudo mais", afirma.
Tatuagens forçadas
Guilherme tatuou a perna de Jackeline com datas e nomes, como o término do relacionamento e as iniciais de um parceiro que ela teve após a separação. Ao reatar em janeiro, ele a obrigou a fazer uma tatuagem profissional no rosto sob ameaça. "Uma semana antes, ele me levou a um amigo tatuador e me obrigou a fazer a tatuagem no rosto. Eu dizia que não queria, mas ele ameaçou minha família, perturbou a vida do meu filho e do meu pai", relata.
A vítima começou a remoção das tatuagens há cerca de dez dias, processo que deve durar 12 sessões: quatro para as da perna e oito para a do rosto. "Estou indo acompanhada. Hoje todo mundo tira foto e não sabe o que estamos passando. Já fiz a primeira sessão e logo farei a segunda. É um processo longo, estou fazendo aos poucos", compartilha.
Tortura física e psicológica
Jackeline detalha que, enquanto estava amarrada, o homem fazia perguntas e a agredia com agulhas se não respondia como ele queria. "Eu não entendia nada do que ele perguntava. Quando respondia algo que ele não queria ouvir, ele me cutucava com agulhas e seringas, fazendo um jogo mental. Repetia que ia me matar e que minha vida pertencia a ele. Na minha cabeça, eu já estava morta", recorda.
O irmão da vítima, que a resgatou após a fuga, já havia recebido ligações sobre agressões anteriores. "No primeiro momento, achei que era briga de casal. Ela não tinha relatado nada, até que questionei. Ela respondeu que havia sido torturada e que ele tentou matá-la. Vi que era muito mais grave. Ela me mandou a localização do celular e eu fui correndo atrás dela", lembra.
Após ser encaminhada à delegacia, exames constataram fraturas no punho, braço, costela e nariz. "Fiquei revoltado. Ela fugiu com a chave da casa e fui até a farmácia do pai dele para devolver. Ele ofereceu ajuda com medicação, mas ela precisava de socorro", pontua o irmão.
O irmão ainda afirmou que Guilherme dormiu durante as sessões de tortura, e a vítima só conseguiu fugir após se soltar das amarras. "Ele disse que ia dormir e depois mataria ela e tiraria a própria vida. Limpou os sangramentos e deu analgésico antes de dormir. Cada vez que ela se desamarrava, ele se mexia na cama. Era um estado de choque", relata.
Crime premeditado
Segundo o advogado da vítima, José Ricardo Baracho Navas, a tortura foi premeditada. "Ele disse a ela que tinha planejado tudo há muito tempo e que naquele dia apenas decidiu executar o plano." Além das agressões físicas, Jackeline foi submetida a tortura psicológica: o suspeito comprou pizzas e a obrigou a observá-lo comer enquanto estava amarrada e desidratada. O advogado afirma que as primeiras agressões foram no rosto da jovem, que precisou ser internada novamente em 24 de abril com problemas respiratórios e hematomas graves.
Prisão em flagrante
Guilherme foi preso em flagrante pela Polícia Civil em 22 de abril, no mesmo dia da fuga de Jackeline. Ele responderá por maus-tratos, estupro de vulnerável, tortura e desacato. A defesa do suspeito informou que aguarda a conclusão do inquérito para se manifestar.
O delegado Franco Augusto Costa Ferreira disse que o caso pode ser investigado como violência doméstica e como uma forma de estupro não convencional, por envolver ato libidinoso. "É um estupro não convencional, já que não se trata de conjunção carnal. Como não existe legislação específica, configura-se como estupro. Ela sofreu violência doméstica e estava catatônica. Conseguiu se desvencilhar e veio à delegacia com o irmão", pontua.



