O assassinato que chocou a Espanha
Na madrugada de 9 de junho de 1933, em Madri, Aurora Rodríguez Carballeira acordou, tomou banho, vestiu-se e mandou a empregada levar os cachorros para passear. Em seguida, assassinou a própria filha, Hildegart, de 18 anos, com três tiros no rosto e um no peito enquanto ela dormia. Calmamente, foi ao encontro de seu amigo e advogado José Botella Asensi e confessou: "Vim contar que matei minha filha, para que você não pense que estou maluca e para que me diga o que tenho que fazer". Ela relatou todos os detalhes sem omitir nada que pudesse inocentá-la.
O crime comoveu a Espanha não apenas pela violência, mas pela falta de causas lógicas. Até aquele dia, Aurora era vista como "o modelo do que poderia ter sido a mulher espanhola: autossuficiente, extremamente culta e inteligente", segundo a escritora Almudena Grandes. Hildegart, por sua vez, era uma jovem prodígio, ativista pela liberação sexual feminina e escritora prolífica.
O plano eugênico
Aos 35 anos, Aurora, nascida por volta de 1879 em Ferrol, Galícia, concebeu mais que uma filha: traçou um plano baseado na eugenia, teoria então popular entre intelectuais. Ela queria gerar e criar a filha em condições ideais para torná-la "a mulher mais perfeita, que, como uma estátua humana, fosse o padrão, a medida da humanidade e a redentora final". Escolheu um homem com características específicas: fisicamente perfeito, maduro, inteligente e culto. Durante a gravidez, mudou-se para Madri e aplicou técnicas eugênicas, como dietas restritivas e exercícios.
Por que queria uma menina? Aurora acreditava que "quem poderia mudar o mundo precisaria ser capaz de reproduzi-lo — e só as mulheres podem ter filhos", explicou a biógrafa Carmen Domingo.
A criação de uma prodígio
Em 9 de dezembro de 1914, nasceu Hildegart. Aurora dedicou-se a transmitir à filha os conhecimentos acumulados em sua biblioteca. Aos dois anos, Hildegart já lia; aos três, escrevia; aos oito, falava inglês, francês e alemão. Aos 13, formou-se com excelência; aos 14, começou a estudar Direito com licença especial, ingressando na vida política como militante socialista e republicana.
Hildegart tornou-se feminista de vanguarda, defendendo educação sexual, controle de natalidade, divórcio e escrevendo ensaios como "A rebeldia sexual da juventude" e "Como curar e evitar as doenças venéreas". Em 1932, cofundou a Liga Espanhola para a Reforma Sexual. No entanto, pagou um preço alto: "Não tive infância", declarou ao jornalista Eduardo de Guzmán. "Precisei usar a infância toda para estudar sem descanso, dia e noite."
Aurora controlava cada aspecto da vida da filha, acompanhando-a a aulas e reuniões, e dormindo no mesmo quarto. O político Julián Besteiro comparou a relação a "um filhote de canguru preso na bolsa invisível com o cordão umbilical intacto". Suspeita-se que Aurora escrevia muitas das obras assinadas por Hildegart. O artigo "Injustiças: Caim e Abel", publicado em 19 de maio de 1933 no jornal La Tierra, exaltava Caim como "o homem que mais uma vez se igualou a Deus ao retirar a vida". Vinte e um dias depois, o mesmo jornal noticiou a morte de Hildegart.
O motivo do crime
Nunca ficou claro o que levou Aurora a matar a filha. Hipóteses incluem um possível namoro de Hildegart, um convite para viajar à Inglaterra com H. G. Wells e Havelock Ellis (que Aurora via como conspiração), desentendimentos políticos, ou o desejo de emancipação da jovem. Para Carmen Domingo, Aurora agiu "porque era fruto da época em que viveu, das suas circunstâncias e da sua patologia". Aurora declarou: "Eu a criei, fiz e formei ao longo dos anos. Sei perfeitamente aonde devia chegar." Ela via a filha como sua obra e sentia o direito de destruí-la.
Julgamento e consequências
O julgamento ocorreu em contexto político conturbado. Os advogados de defesa, de esquerda, acreditavam que Aurora sofria de problemas mentais. Já a promotoria, de direita, insistia em sua sanidade para obter ganhos políticos. O promotor José Valenzuela Moreno a descreveu como tendo "um cérebro desordenado pela intoxicação de mil leituras mal digeridas". Aurora foi condenada a 26 anos, 8 meses e 1 dia de prisão, sentença que recebeu com alegria. Ela planejava reformar o sistema prisional, mas em 1935 foi transferida para um hospital psiquiátrico em Ciempozuelos, onde permaneceu até a morte em 1956. Seu histórico médico, publicado em 1977, enriqueceu o conhecimento sobre a psiquiatria da época.



