Empresária suspeita de agredir doméstica grávida é investigada por cinco crimes no MA
Empresária suspeita de agredir doméstica grávida no MA

O Instituto de Criminalística da Polícia Civil confirmou, nesta sexta-feira (8), que os áudios divulgados com supostas confissões de agressões contra uma empregada doméstica grávida de 19 anos, no Maranhão, são da empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, de 36 anos. O laudo apontou 100% de compatibilidade entre a voz nos áudios e a da empresária.

Confirmação da Perícia

O delegado Walter Wanderley, da 21ª Delegacia de Polícia Civil do Araçagy, responsável pela investigação, informou ao g1 que solicitou a perícia na quinta-feira (7), logo após a prisão de Carolina. "Quando ela negou isso no interrogatório, para não deixar brecha para a defesa, imediatamente mandei colher a voz dela ao vivo, natural, para comparar com o áudio. O Instituto de Criminalística já me passou a informação de que a voz é compatível", disse o delegado. Em depoimento, Carolina havia negado ser a autora dos áudios. Já a defesa da empresária afirma que ela confessou envolvimento nas agressões. O material será anexado ao inquérito.

Depoimento e Saúde da Empresária

Durante o depoimento, que durou pouco mais de uma hora, Carolina Sthela afirmou que o anel que teria motivado as agressões estava avaliado em R$ 5 mil. Ela também disse estar grávida de três meses e enfrentar problemas de saúde, como pressão alta e infecção urinária. No entanto, a polícia não confirmou a gestação. Ela foi levada ao Instituto Médico Legal (IML) para exames na quinta-feira, mas o resultado não foi divulgado. A empresária deve passar por audiência de custódia nesta sexta-feira, quando a Justiça decidirá se ela permanece presa ou responde em liberdade. A defesa informou que deve pedir prisão domiciliar, alegando gravidez, problemas de saúde e necessidade de cuidar do filho.

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Crimes Investigados

A empresária é investigada por cinco crimes: tentativa de homicídio triplamente qualificado, cárcere privado, calúnia, difamação e injúria. A classificação de tentativa de homicídio triplamente qualificado indica intenção de matar com agravantes, como motivo torpe, uso de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. O delegado geral da Polícia Civil, Augusto Barros, afirmou que, apesar dos materiais já apresentados, o caso segue sob investigação e outros elementos ainda serão analisados nos próximos dias.

Prisão e Fuga

Carolina Sthela foi presa quando tentava fugir, segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA). Ela foi localizada em um posto de gasolina em Teresina, perto da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI). A defesa nega que ela tentasse fugir. De acordo com a Polícia Civil do Piauí, Carolina estava hospedada na casa de um familiar na capital piauiense e era monitorada. O delegado Yan Brayner, diretor de inteligência da Polícia Civil, afirmou que Carolina estava abastecendo o carro com o objetivo de possivelmente fugir do Piauí. O marido e o filho de seis anos da mulher também estavam no veículo. A advogada Nathaly Moraes disse que Carolina estava no Piauí porque não tinha familiares no Maranhão com quem deixar a criança.

Envolvimento de Policial Militar

O policial militar Michael Bruno Lopes Santos, suspeito de participar das agressões, se entregou à polícia na quinta-feira. Em depoimento à Corregedoria-Geral da Polícia Militar, ele negou envolvimento. Já à Polícia Civil, admitiu que esteve na casa e participou das agressões, mas afirmou que a maior parte dos atos foi cometida por Carolina. Ele também contestou a versão da vítima. Segundo a polícia, ele seria o homem citado pela empregada como um dos responsáveis pelas agressões e tortura. O PM disse conhecer Carolina há seis anos. A Corregedoria-Geral da PMMA abriu procedimento interno para apurar a participação de Michael Bruno. A defesa dele reforçou que ele não praticou agressões e que ainda não teve acesso integral aos autos.

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Atuação de Policiais Militares na Ocorrência

Quatro policiais militares que atenderam a ocorrência são investigados pela atuação no caso. A Polícia Militar abriu investigação administrativa para apurar a conduta dos agentes, que ainda não foram afastados das funções, segundo a SSP-MA. A apuração foi aberta após a divulgação de áudios em que Carolina relata as agressões e afirma que não foi levada à delegacia por conhecer um dos policiais. Em um dos áudios, ela diz: "Parou uma viatura no meio da rua, eles vieram aqui de manhã. Mas veio um policial que me conhecia. Sorte minha, né? Aí eu expliquei para ele o que tinha acontecido. Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, eu teria que te conduzir para a delegacia, porque ela está cheia de hematomas’. Aí eu disse: ‘era para ter ficado era mais, não era para ter saído viva’".

Relato da Vítima

A jovem descreveu as agressões sofridas, incluindo puxões de cabelo, socos, murros e ter sido derrubada no chão. Durante os ataques, tentou proteger a barriga, pois estava grávida de cinco meses. A ex-patroa a acusou de ter roubado um anel e passou horas procurando o objeto, que foi encontrado em um cesto de roupas sujas. Mesmo após a joia ser localizada, as agressões continuaram. A vítima afirmou que foi ameaçada de morte por Carolina caso contasse à polícia. "Começou com puxões de cabelo. Eu fui derrubada no chão e passei boa parte do tempo ali. Foram tapas, socos e murros... foi sem parar. Eles não se importavam", disse a jovem. Em áudios obtidos pela TV Mirante, Carolina afirma que a vítima "não era pra ter saído viva". A OAB classificou o caso como tortura agravada, além de lesão corporal, ameaça e calúnia.

Condições de Trabalho

A jovem afirmou que recebeu R$ 750 por pouco mais de duas semanas de trabalho na casa da empresária. Ela acumulava funções e cumpria jornada diária de quase 10 horas, incluindo limpeza, cozinha, lavar e passar roupas, além de cuidar do filho de seis anos da ex-patroa. O pagamento foi feito de forma fracionada, por meio de transferências em nome de terceiros. A jovem disse que começou a trabalhar sem combinar salário, com jornada de segunda a sábado, das 9h às 19h, com apenas 30 minutos de intervalo.

Antecedentes da Empresária

A polícia informou que Carolina Sthela responde a mais de dez processos. Em 2024, foi condenada por calúnia após acusar falsamente uma ex-babá de roubar uma pulseira de ouro. A pena de seis meses em regime aberto foi substituída por serviços comunitários, além de indenização de R$ 4 mil por danos morais. A ex-babá, Sandila Souza, afirmou que começou a trabalhar na casa aos 17 anos e que o pagamento era feito por contas de terceiros. Ela disse que a indenização ainda não foi paga. Em 2023, a empresária foi condenada por furto qualificado contra a própria irmã, em conjunto com o marido, por desviar mais de R$ 20 mil de uma escola de natação em São Luís.

Manifestação da Empresária

Em nota, Carolina Sthela afirmou que respeita as autoridades e que jamais se negou a colaborar. Disse repudiar qualquer forma de violência e pediu que não haja julgamento antecipado. A SSP-MA informou que a prisão foi realizada em cooperação entre as polícias do Maranhão e Piauí, após trabalho de Inteligência. A defesa de Michael Bruno informou que ele nega agressões e que sua versão será apresentada tecnicamente nos autos.