Grande Recife bate recorde histórico de crianças e adolescentes baleados em 2025
Recife bate recorde de crianças e adolescentes baleados em 2025

Grande Recife registra números históricos de violência contra crianças e adolescentes em 2025

O ano de 2025 marcou um triste recorde para a Região Metropolitana do Recife, com índices alarmantes de violência armada atingindo especialmente crianças e adolescentes. Segundo o relatório anual do Instituto Fogo Cruzado divulgado nesta quinta-feira (26), o período foi o pior da série histórica iniciada em 2019 em dois aspectos cruciais: número de vítimas de balas perdidas e quantidade de menores baleados.

Cenário devastador para crianças e adolescentes

Os dados apresentam um quadro preocupante: enquanto em 2024 foram registrados 147 menores de idade baleados, em 2025 esse número subiu para 148, estabelecendo um novo recorde histórico. Desse total, 16 são crianças de até 11 anos, sendo que quatro perderam a vida. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, 132 foram atingidos por disparos de arma de fogo, com 93 mortes e 39 feridos.

Ana Maria Franca, coordenadora do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco, explica que a diferença principal está no aumento significativo de crianças atingidas. "Quando a gente está falando, principalmente de adolescentes, esse dado não é novo para a gente. Adolescentes sempre foram vitimizados desde que a gente passa a fazer o monitoramento aqui. O que acontece em 2025 é que a gente tem um número maior de crianças aliadas a esse somatório e isso resulta num recorde na nossa série histórica", detalha a especialista.

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Segundo Franca, há uma distinção importante na natureza da violência: "Elas são, na maioria das vezes, vitimizadas porque estavam numa situação de conflito, mas, quando a gente fala de adolescência, a gente está falando de uma violência muito mais intencional. Então, a gente percebe que os adolescentes geralmente estão baleados em situações de homicídio e tentativa".

Transparência pública e políticas de prevenção

O levantamento revela que 96% dos adolescentes baleados foram vítimas de homicídios, em ataques diretos e intencionais. Entre abril de 2018 e dezembro de 2025, o Grande Recife registrou 902 jovens de 12 a 17 anos baleados, sendo que 42% dessas ocorrências aconteceram nos últimos quatro anos.

Ana Maria Franca critica a falta de transparência nas políticas de segurança: "A gente vive em um contexto em que há pouca transparência na segurança pública. A gente vê muitos investimentos no campo da repressão, então equipamentos, equipamentos bélicos, inclusive, que é o que o governo do estado apresenta como ganho na segurança pública. Mas isso não aparece para a gente a partir da transparência de quais ações efetivas que estão sendo aplicadas para poder reduzir esse número".

Recorde de vítimas de balas perdidas

Outro ponto alarmante do estudo é o aumento no número de pessoas atingidas por balas perdidas, que também atingiu recorde histórico. Segundo o Fogo Cruzado, ao menos 72 pessoas foram vítimas em 2025, sendo oito mortes e 64 feridos. O número representa um aumento de 47% em relação a 2024, com pico registrado em março quando 17 pessoas foram atingidas.

Um dos episódios mais emblemáticos aconteceu durante um show de João Gomes no carnaval de Olinda, onde sete pessoas foram atingidas na Praça do Carmo, principal foco de folia da cidade.

Disputas territoriais em expansão

O relatório aponta crescimento preocupante das disputas territoriais entre grupos armados. Em 2025, foram registrados 46 tiroteios motivados por disputas entre grupos no Grande Recife, um aumento de 650% em relação ao ano anterior.

"A expansão dos grupos armados que dominam esse mercado, e isso já está dado no Brasil inteiro, então não é uma especificidade daqui de Pernambuco. Em alguns lugares, isso tem aparecido de forma mais explícita, como a Bahia, uma presença mais intensa desses grupos", analisa a coordenadora do Instituto Fogo Cruzado.

Dados gerais e distribuição territorial

Durante 2025, 1.718 pessoas foram baleadas no Grande Recife, uma média de cinco pessoas baleadas por dia. Do total, 1.233 morreram e 485 ficaram feridas, representando uma queda de 14% no número de mortos e 7% na quantidade de feridos em comparação com 2024.

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A capital Recife liderou o número de registros, concentrando 38% dos tiroteios mapeados (561 casos). Na sequência aparecem:

  • Jaboatão dos Guararapes: 228 ocorrências
  • Cabo de Santo Agostinho: 146 ocorrências
  • Olinda: 123 ocorrências
  • Paulista: 95 tiroteios

Entre os bairros analisados, Muribeca e Dois Unidos lideraram em número de pessoas baleadas, com 35 casos cada um, seguidos por Nova Descoberta (33), Prazeres (31) e Ponte dos Carvalhos (25).

Metodologia e conclusões

O levantamento do Fogo Cruzado é elaborado a partir da chamada "produção cidadã de dados", reunindo informações coletadas pela sociedade civil com base no monitoramento da imprensa, redes sociais e relatos de pessoas que vivenciam situações de violência armada. Cada ocorrência passa por um processo de checagem antes de ser confirmada e incorporada ao relatório.

Para Ana Maria Franca, mesmo com a diminuição nos dados gerais de tiroteios (queda de 15% em relação a 2024), não há uma percepção real de melhora na segurança: "A gente sempre chama a atenção de que, apesar da queda no número de tiroteios, quando a gente olha para indicadores específicos, como, por exemplo, o de crianças e adolescentes, a gente percebe que teve um aumento. Quando a gente olha as vítimas de bala perdida, de tiroteios motivados por disputa... Então, são situações que vão mostrando para a gente que não existe um aumento na sensação de segurança".