Um júri federal em Nova York condenou Daniel Sikkema por conspiração para contratar e pagar um assassino que matou o marido dele, o galerista Brent Sikkema, em uma casa de férias no Rio de Janeiro. O veredito foi divulgado ontem pelo tribunal federal de Manhattan, conforme o Wall Street Journal.
Detalhes da condenação
Daniel Sikkema, de origem cubana, foi considerado culpado de três acusações relacionadas ao plano de assassinato por encomenda. Os promotores afirmaram que ele financiou o crime e usou pessoas próximas como intermediárias. "Ele pagou pelo assassinato do próprio marido e manipulou amigos para fazer isso", declarou a promotora Meredith Foster em sua argumentação final.
A defesa sustentou que os repasses de dinheiro a Alejandro Triana Prevez, apontado como autor das facadas, não eram pagamento pelo crime. O advogado Richard Levitt alegou que Daniel escondeu a ligação com Prevez "porque estava em pânico após o assassinato".
Pedido de prisão perpétua
A promotoria pediu prisão perpétua para Daniel, mas a data da sentença ainda não foi divulgada. A defesa não comentou sobre a possibilidade de recorrer, segundo o Wall Street Journal.
O crime no Rio de Janeiro
Brent Sikkema, de 75 anos, morreu em 15 de janeiro de 2024 dentro de um sobrado no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio. Enquanto a vítima estava na cidade, Daniel permanecia em Nova York com o filho do casal, hoje com 15 anos. O ataque ocorreu de madrugada, e Brent foi esfaqueado 18 vezes com uma faca da própria cozinha.
Segundo as investigações, Prevez, um cubano que vivia no Brasil, matou Brent a mando de Daniel em meio a um divórcio conturbado. As partes não contestaram que Prevez foi o autor das facadas e que Daniel fez pagamentos secretos de cerca de US$ 9 mil antes e depois do crime.
Prisão de Prevez
O cubano foi preso no Brasil poucos dias depois e aguarda julgamento em uma prisão brasileira. Após o veredito nos EUA, o advogado de Prevez afirmou que "Alejandro Triana acredita que a sentença fez justiça, já que Daniel foi o mentor do crime e o ameaçou repetidamente para que o assassinato fosse executado". Prevez morava em São Paulo há um ano e meio e foi ao Rio exclusivamente para cometer o crime. Depois, voltou a São Paulo, desfez-se do carro usado e comprou um veículo novo para fugir, sendo detido em uma estrada de Minas Gerais. Além do veículo de fuga, US$ 3 mil foram encontrados com ele pela polícia mineira.
Histórico do casal
Daniel e Brent se conheceram em 2007 e se casaram seis anos depois, mas iniciaram o processo de divórcio em 2022. A disputa se arrastou por dois anos, com brigas pela guarda do filho e divisão do patrimônio de Brent. Documentos do caso indicam que Brent retirou Daniel do testamento e rejeitou um acordo proposto pelo ex-marido. Segundo o Wall Street Journal, Daniel chegou a pedir US$ 6 milhões em um e-mail, valor considerado excessivo pelo executor do espólio, James Deaver.
Defesa de Daniel
Na época em que Daniel foi preso, sua defesa afirmou que ele se prontificou a ser interrogado por e-mail e disse não haver registro de contato direto entre Daniel e Prevez. A advogada Fabiana Marques, que representa Prevez no Brasil, declarou que a estratégia do cubano de acusar o marido do galerista visava garantir uma "sentença mais branda". "A natureza do crime, marcada por indícios de passionalidade, demanda uma investigação meticulosa e isenta, que considere todas as possíveis vertentes sem recorrer a estigmatizações prejudiciais", disse.
Prisão e extradição
Daniel veio ao Brasil após a morte do galerista e conseguiu deixar o país sem ser preso, mas acabou detido nos EUA no fim de março de 2024 após tentar falsificar o passaporte. Ele alegou ter perdido o documento durante uma viagem à Europa. Pagou fiança de US$ 1 milhão e cumpria prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. A defesa de Daniel nos Estados Unidos não se pronunciou sobre a detenção.
O Tribunal de Justiça do Rio encaminhou em 1º de abril de 2024 um pedido de extradição ao Ministério da Justiça. O pedido foi assinado pela juíza Tula Correa de Melo, que rejeitou derrubar a prisão preventiva contra Daniel. Para ela, há indícios suficientes que o apontam como mandante do crime. No entanto, Daniel nunca foi extraditado, e as autoridades dos dois países passaram a colaborar no caso. Agentes do FBI foram ao Rio para examinar a cena do crime. A Polícia Civil do Rio confirmou ao UOL em julho que trocava informações com as autoridades dos EUA e que promotores americanos estiveram na casa.
O marido do galerista foi preso nos Estados Unidos em março de 2025 e aguardava o julgamento.
Carreira de Brent Sikkema
Brent Sikkema era um nome conhecido no mercado de arte em Nova York e comandava a galeria Sikkema Jenkins. Ele ajudou a impulsionar artistas como Kara Walker e Vik Muniz; a galeria hoje se chama Sikkema Malloy Jenkins. O galerista começou a carreira em 1971 e abriu uma galeria 20 anos depois, em Nova York. Em 1999, a galeria mudou para o distrito artístico de West Chelsea e passou por reforma e ampliação. Alguns anos depois, o nome foi alterado para Sikkema Jenkins & Co, onde era coproprietário. "A galeria lamenta esta tremenda perda", disseram os sócios em nota. Em publicações nas redes sociais, ele definiu o Rio de Janeiro como sua "segunda casa". "Não me lembro de uma cidade tão constantemente difamada pela imprensa internacional como a minha segunda casa, o Rio de Janeiro", afirmou.



