Áudio revela propina de até R$ 5 milhões para encerrar investigações na Polícia Civil de SP
Propina de R$ 5 mi para encerrar investigação em SP é revelada em áudio

Áudio revela propina de até R$ 5 milhões para encerrar investigações na Polícia Civil de SP

Novas conversas em áudio e texto obtidas pela GloboNews expõem tratativas detalhadas envolvendo advogados e doleiros para o pagamento de vantagens indevidas e propinas a policiais civis de São Paulo. Os valores negociados variam entre R$ 100 mil e impressionantes R$ 5 milhões, conforme revelado no âmbito da Operação Bazaar, deflagrada na quinta-feira (5) em ação conjunta entre o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, a Polícia Federal e a Corregedoria-Geral da Polícia Civil.

Esquema de corrupção sistêmica dentro da polícia

Os três órgãos realizaram a operação para prender suspeitos de integrarem um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro que ocorria dentro de departamentos estratégicos da Polícia Civil paulista. As investigações apontam para um modus operandi organizado que comprometia a atuação policial em investigações criminais importantes.

Negociação de R$ 700 mil reduzida para R$ 100 mil

Em uma das conversas extraídas de celulares apreendidos, o advogado Guilherme Nasser dialoga com o doleiro Cléber Azevedo dos Santos sobre pagamentos em propina para interromper a apuração de um inquérito policial. No áudio, o advogado afirma que inicialmente um escrivão chegou a pedir R$ 700 mil, valor que foi recusado, sendo posteriormente acertado o montante de R$ 100 mil pela "boa relação" que mantinha com os policiais.

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Nasser menciona ainda que buscará ajuda do delegado João Eduardo da Silva, à época lotado no 16° Distrito Policial (Vila Clementino) de São Paulo. O delegado, que atualmente atua no 35° Distrito Policial (Jabaquara), foi preso na operação realizada na quinta-feira (5).

Oferta milionária de R$ 5 milhões para barrar investigação

Em outra conversa obtida pela GloboNews, o advogado Guilherme Nasser conversa com o doleiro Robson Martins de Souza, também investigado pelo Ministério Público de São Paulo. Através de mensagens de texto e áudio, eles discutem a cobrança de R$ 5 milhões no 16° Distrito Policial de São Paulo para barrar uma investigação que estava sob responsabilidade do delegado João Eduardo da Silva.

As mensagens revelam diálogos diretos sobre o valor da propina, com Souza pressionando Nasser para entrar em contato com o delegado: "Boa tarde meu irmão tudo bem com você? O Dr João está esperando a sua ligação". Em resposta, Nasser confirma: "Fala, mestre, beleza? Sim, já tô agendado para ir lá no João, tá? Fica tranquilo. Tá, mas o que que eu vou ofertar? É aqueles cinco lá, é isso?".

Investigadores identificam "investigação de gaveta"

Os promotores do Gaeco identificaram que nem a intimação, nem os relatórios do Coaf foram juntados aos autos do inquérito, e que não houve formalização aos investigados, caracterizando o que classificam como "investigação de gaveta" para obtenção de vantagem indevida. Segundo a investigação, as condutas de João Eduardo e do escrivão Ciro Borges Ferraz representam de modo bastante claro o formato de corrupção dos policiais civis envolvidos.

Outros valores e participantes do esquema

A investigação revela ainda outras negociações envolvendo valores variados:

  • Propina de R$ 50 mil para interromper inquérito aberto em outubro de 2022
  • Cobranças que chegaram a atingir R$ 33 milhões conforme outros áudios apreendidos
  • Mensagem que menciona delegado que "recebeu mais de R$ 20 milhões" em propinas

Até a última atualização, nove investigados haviam sido presos, incluindo:

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  1. José Eduardo da Silva (delegado do 35º DP)
  2. Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC)
  3. Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático)
  4. Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão no 35º DP)
  5. Meire Bonfim da Silva Poza (doleira)
  6. Cléber Azevedo dos Santos
  7. Robson Martins de Souza
  8. Antônio Carlos Ubaldo Júnior
  9. Marlon Antonio Fontana (advogado)

Modus operandi do esquema criminoso

O esquema funcionava basicamente de duas formas principais, conforme detalhado pela investigação:

Primeiramente, policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos para cobrança de propina. Com base nesses relatórios, enviavam intimações e exigiam pagamentos para não dar andamento às investigações.

Paralelamente, doleiros que tomavam conhecimento de investigações em curso ofereciam propina diretamente para que os trabalhos fossem interrompidos. A investigação identificou ainda destruição de provas, incluindo trocas de HDs apreendidos por dispositivos vazios, e métodos sofisticados para ocultar a origem de recursos ilícitos.

Posicionamento das defesas e autoridades

O advogado Guilherme Nasser, alvo de busca e apreensão na operação, emitiu nota afirmando que "a medida cautelar representa verdadeira intimidação à atividade da advocacia" e que "repudiamos qualquer caminho que não atenda estritamente a legalidade".

A defesa do delegado João Eduardo da Silva e do escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz declarou, também em nota, que ainda não teve acesso à íntegra dos documentos da investigação e que "qualquer ilação ou afirmação de culpa revela-se não apenas precipitada, mas também desprovida de fundamento".

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".