PF encontra planilha de Bacellar sobre loteamento de cargos no governo do Rio entre deputados da Alerj
PF encontra planilha de Bacellar sobre loteamento no Rio

PF descobre planilha detalhada de loteamento de cargos no governo do Rio durante gestão de Bacellar

A Polícia Federal realizou uma descoberta crucial durante buscas no gabinete de Rodrigo Bacellar, presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os investigadores encontraram documentos que expõem com precisão o funcionamento do loteamento de cargos e órgãos estatais na política fluminense, revelando um esquema organizado de troca de favores políticos.

Planilha detalha pedidos de deputados por cargos estratégicos

No computador de Rui Carvalho Bulhões Júnior, chefe de gabinete de Rodrigo Bacellar, os agentes apreenderam uma planilha eletrônica intitulada "PEDIDOS EM 12-04-23". Este documento funciona como um inventário minucioso de cargos e influências distribuídas entre parlamentares em troca de apoio político, evidenciando um sistema de barganha institucionalizado.

O relatório da PF estabelece uma correlação direta entre os benefícios listados no documento e a fidelidade partidária dos deputados ao chefe afastado da Alerj. Segundo as investigações, 87,88% dos deputados (27 parlamentares) cujos nomes e pedidos constavam na planilha votaram favoravelmente à soltura de Rodrigo Bacellar em dezembro de 2025, após sua prisão pela Polícia Federal.

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Controle sobre nomeações que deveriam ser do governador

A PF aponta que, sob a gestão de Bacellar, a Alerj passou a controlar nomeações estratégicas que, por lei, deveriam ser prerrogativas exclusivas do governador Cláudio Castro. Entre essas nomeações estavam os comandos de batalhões da Polícia Militar, delegacias e secretarias de peso, demonstrando uma usurpação de atribuições constitucionais.

O documento possui abas específicas que descrevem o que cada deputado já "possui" (cargos e comandos já conquistados) e quais são seus novos "pleitos" na estrutura administrativa do Governo do Estado, funcionando como uma verdadeira lista de desejos políticos.

Exemplos concretos de pedidos por controle de órgãos

A planilha detalha pedidos de controle sobre diversos órgãos públicos importantes:

  • Arthur Monteiro solicitou controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias, além de postos na Fundação Leão XIII, Faetec, Detran e Ciretran.
  • Célia Jordão pleiteou um posto avançado de Turismo em Angra dos Reis.
  • Carlinhos BNH requereu controle de unidades do Detran e Faetec em Queimados, Fundação Leão XIII em Japeri, e Segurança Presente e Fundação Leão XIII em Nova Iguaçu.
  • Deodalto solicitou OSP Paracambi, OSP Japeri, Fundação Leão XIII em Japeri e Paracambi.
  • Douglas Ruas pediu cargos na Faetec e no Detran de São Gonçalo, além de obras no município.

Outros deputados também apresentaram solicitações específicas:

  1. Guilherme Delaroli requereu 15 cargos na Alerj e o comando do Detran e Faetec em Itaboraí e Rio Bonito.
  2. Thiago Rangel solicitou postos do Detran e Detro em Campos, além de cargos na FIA e 15 vagas na Alerj.
  3. Filipinho Ravis pleiteou vagas na Cultura, Detran, Fundação Leão XIII e Faetec em Nova Iguaçu.
  4. Jorge Felipe Neto e Julio Rocha solicitaram Iterj, Detran Guapimirim, Detran Cachoeiras de Macacu, Fundação Leão XIII e Faetec em Guapimirim.

Pedido considerado "sensível" pela investigação

O documento destaca como particularmente "sensível" o pedido do deputado Rodrigo Amorim, autoproclamado membro da "Tropa do Bacellar". Na planilha, consta que Amorim pleiteou cargos para "compensar Ceperj", referindo-se à Fundação Ceperj, envolvida em escândalo de desvios de mais de 220 milhões de reais.

A PF relaciona este pedido diretamente ao esquema de corrupção na Ceperj, onde Amorim teria indicado cargos em projetos sociais que serviram para alimentar currais eleitorais. Com o fim do esquema na fundação, os novos pedidos — como postos no Detran e na Operação Segurança Presente — serviriam para manter sua base política intacta.

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Caderno pessoal revela planos de "Estado paralelo"

Além da planilha eletrônica, os agentes encontraram um caderno pessoal de Bacellar contendo o que a PF descreve como "organograma de sua futura administração". Nas anotações manuscritas, Bacellar já delineava a composição de um eventual secretariado para quando assumisse o governo do Estado.

No rascunho, nomes como Douglas Ruas aparecem vinculados à Secretaria de Obras, enquanto outros, como Robson e Pollyana, são associados à Casa Civil e Planejamento. O caderno também detalha planos de controle sobre a Polícia Civil, Polícia Militar, SEAP e Saúde, evidenciando, segundo a PF, a intenção de consolidar um "Estado paralelo" onde a máquina pública fluminense serviria estritamente a interesses de um grupo criminoso encastelado no poder.

Relatório enviado ao ministro Alexandre de Moraes

Todas essas informações estão contidas no relatório da Polícia Federal enviado no fim de janeiro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e obtido com exclusividade pelo Radar. O documento representa uma peça fundamental na investigação sobre a estruturação de um esquema de corrupção sistêmica no Rio de Janeiro, envolvendo a mais alta cúpula do poder legislativo estadual.

A descoberta da planilha e do caderno pessoal de Bacellar fornece evidências concretas de como funcionava o mecanismo de troca de cargos públicos por apoio político, revelando a profundidade do comprometimento de instituições que deveriam servir aos interesses da população.