PF deflagra operação em 11 estados e DF contra preços abusivos de combustíveis
PF combate preços abusivos de combustíveis em 11 estados

Operação nacional contra abusos nos preços dos combustíveis

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira uma operação em 11 estados e no Distrito Federal para combater o aumento abusivo nos preços dos combustíveis. A ação ocorre em meio a uma crise internacional que já impacta diretamente a economia brasileira, com reflexos na inflação, nas decisões sobre juros e até no abastecimento em postos de gasolina pelo país.

Cenário internacional pressiona preços no Brasil

Assim como a guerra no Oriente Médio, a crise dos combustíveis não tem previsão de acabar. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostrou que o litro do diesel acumula alta de quase 24% nos postos desde o início do conflito, passando de R$ 6,03 para R$ 7,45, em média. A gasolina também já pesa mais no bolso, com alta de 8% no mesmo período, subindo de R$ 6,28 para R$ 6,78 o litro.

Durante a semana, os Estados Unidos deram sinais de que o conflito poderia arrefecer, indicando a possibilidade de um cessar-fogo. Mas Israel afirmou que vai ampliar os ataques ao Irã e bombardeou um centro de produção de mísseis da Marinha iraniana e uma usina de urânio. O resultado imediato foi que o barril do petróleo do tipo Brent, matéria-prima dos combustíveis, voltou a encostar nos US$ 120.

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Analistas alertam que, se a guerra continuar e os problemas na oferta global da commodity se agravarem, a tendência é de uma alta ainda maior nos preços. Enquanto isso, o governo brasileiro corre contra o tempo para evitar que esse salto nos preços dos combustíveis desencadeie uma crise inflacionária em ano eleitoral.

Medidas governamentais e resistência estadual

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote de medidas que dava incentivo ao setor e zerava impostos federais ao diesel. Também chegou a pedir que governadores zerassem o ICMS sobre combustíveis, mas a proposta foi recusada inicialmente.

Nesta sexta, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que um número relevante de estados aceitou uma segunda proposta, que prevê um auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, com custos divididos igualmente entre União e estados. Ceron não especificou quantos estados aderiram nem quais são.

Desabastecimento e defasagem de preços

Enquanto isso, entidades sindicais já relatam falta de combustíveis em alguns postos pelo país. Um dos principais entraves é a defasagem do preço do diesel em relação ao mercado internacional. O diesel produzido no Brasil fica mais barato que no exterior, enquanto a importação se torna mais cara.

O levantamento semanal da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indica que os preços praticados nas refinarias da Petrobras passaram a ficar bem abaixo dos valores do mercado internacional. No caso do diesel, a diferença média chegou a cerca de 65% em 24 de março — o equivalente a R$ 2,34 por litro abaixo da paridade de importação. Na gasolina, a defasagem era de cerca de 45%, ou R$ 1,13 por litro.

Impacto regional do desabastecimento

No Rio Grande do Sul, levantamento do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do estado (Sulpetro) indica que 88% dos postos, entre embandeirados e independentes, receberam combustíveis apenas de forma parcial. O presidente da entidade, Fabricio Severo Braz, afirma que há dificuldades para comprar gasolina e diesel devido às cotas estabelecidas pela Petrobras.

No Rio de Janeiro, o sindicato regional (Sindcomb) indicou que há instabilidade na entrega de combustíveis no município, com postos de marca própria relatando desabastecimento. Postos com contrato de fidelidade vêm sendo atendidos com restrições de volume, mas o impacto mais severo recai sobre os postos de marca própria, diz em nota.

Em São Paulo, o presidente do sindicato regional (Sincopetro), José Alberto Gouveia, afirma que a rede independente — que representa 30% dos postos no estado — tem enfrentado dificuldades não apenas no abastecimento, mas também na manutenção do negócio.

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Leilões da Petrobras e análise de mercado

Para suprir a falta de combustíveis em determinadas regiões do país, a Petrobras anunciou um aumento de oferta e realizou leilões para vender parte de sua produção. De acordo com análise do Banco do Brasil, nesses leilões os combustíveis chegaram a ser vendidos por valores bem acima do preço de referência. Em algumas áreas do Norte e do Nordeste, essa diferença chegou a até R$ 2,65 por litro.

Para o presidente da Abicom, Sérgio Araújo, esses valores indicam um descompasso entre os preços praticados no Brasil e as condições do mercado internacional. Está evidente que o preço da Petrobras está muito defasado e que as distribuidoras precisam repassar esse aumento de custo, afirma Araújo.

Impacto econômico e perspectivas

Para analistas do BTG Pactual, o comportamento do petróleo, pressionado pelo conflito geopolítico, passou a ocupar papel central nas projeções para a economia. Segundo o banco, a alta da commodity pode influenciar não apenas a inflação, mas também as decisões sobre a taxa básica de juros no Brasil, a Selic.

O Banco Central já demonstrou preocupação com a guerra no Oriente Médio. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,75% ao ano na reunião de março, mas deixou de indicar novos cortes nas próximas reuniões e citou o conflito quatro vezes no comunicado como fonte de incerteza para as decisões futuras.

O economista-chefe do Banco do Brasil, Marcelo Rebelo, calcula que o choque do petróleo pode acrescentar cerca de 0,6 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026. Apesar desse efeito, Rebelo afirma que o Brasil tem alguma capacidade de absorver choques desse tipo, pois o país também exporta petróleo e tende a se beneficiar, ao menos parcialmente, da alta das cotações no mercado internacional.

Mesmo assim, o impacto chega ao dia a dia do consumidor, principalmente por meio dos combustíveis e do transporte, que têm peso relevante na formação da inflação medida pelo IPCA. A operação da Polícia Federal representa uma resposta direta às pressões que afetam milhões de brasileiros no abastecimento de seus veículos e no custo de vida geral.