Operação Erga Omnes desvenda esquema de movimentação financeira suspeita em Manaus
A Polícia Civil do Amazonas revelou detalhes alarmantes sobre um esquema de movimentação financeira que envolve a ex-chefe do gabinete pessoal do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante-AM). Segundo as investigações, Anabela Cardoso Freitas foi responsável por encaminhar mais de R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo para a agência de turismo Revoar, empresa considerada fantasma pelas autoridades.
Empresa sem estrutura e valores sem origem declarada
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), unidade de inteligência financeira do Brasil, identificou que os valores movimentados não possuem origem declarada, um forte indício de dinheiro ilícito. A polícia concluiu que a agência Revoar é fantasma porque não possui sede física para atendimento, não tem site oficial e não há registros de compra de passagens aéreas em companhias. O único endereço disponível é a residência do proprietário, Alcir Queiroga.
Anabela Freitas e Alcir Queiroga foram presos na operação Erga Omnes, deflagrada na sexta-feira (20), que investiga o chamado núcleo político do Comando Vermelho (CV) no Amazonas. A ação resultou na prisão de outras 12 pessoas, sendo oito no estado, enquanto nove investigados permanecem foragidos, incluindo o suposto chefe do grupo.
Depoimentos revelam uso do dinheiro para viagens do prefeito e familiares
Em depoimento à polícia, Alcir Queiroga confirmou as movimentações financeiras realizadas por Anabela e afirmou que os valores foram utilizados para comprar passagens aéreas destinadas a viagens do prefeito David Almeida, seus familiares e integrantes da cúpula do poder executivo de Manaus. Segundo ele, os pagamentos eram feitos em dinheiro vivo, com cédulas de R$ 20, R$ 50 e R$ 100.
O investigado detalhou que Anabela quase não viajava pessoalmente, e a maioria das passagens era emitida para pessoas ligadas à prefeitura, muitas vezes para viagens de lazer de parentes próximos. Ele citou como exemplo uma viagem ao Caribe durante o Carnaval do ano passado, quando Anabela comprou passagens para a primeira-dama, Izabelle Fontenelle, e mais dois parentes, com pagamento à vista de aproximadamente R$ 34 mil.
Esquema de pagamentos em dinheiro vivo e destinos frequentes
Em depoimento complementar realizado no sábado (21), Alcir acrescentou que os valores pagos em dinheiro vivo variavam de R$ 15 mil a R$ 40 mil, muitas vezes com emissão em regime de urgência. Os destinos mais comuns eram São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Quando o prefeito viajava, dificilmente ia sozinho, sendo sempre acompanhado por amigos, seguranças, assessores e parentes.
Alcir também afirmou que Anabela solicitava passagens para o vice-prefeito, Renato Junior, e outras pessoas da prefeitura, incluindo o subsecretário de obras, Valcerlan Ferreira Cruz, igualmente pagas em dinheiro. O investigado expressou temor por sua vida após as revelações.
Operação apreende bens e investiga organização criminosa
A operação Erga Omnes também resultou na apreensão de carros de luxo, dinheiro em espécie e documentos. Segundo a polícia, a organização criminosa movimentou cerca de R$ 70 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano desde 2018, atuando em conjunto com traficantes do Amazonas e de outros estados.
As investigações apontam que os suspeitos facilitavam a contratação de empresas de fachada nos setores de transporte e logística, usadas para comprar drogas na Colômbia e enviá-las a Manaus, de onde seriam distribuídas para outras unidades da federação. Os investigados devem responder por crimes como:
- Organização criminosa
- Associação para o tráfico de drogas
- Corrupção ativa e passiva
- Lavagem de dinheiro
- Ocultação de patrimônio
- Violação de sigilo funcional
O g1 e a Rede Amazônica tiveram acesso aos depoimentos, mas não obtiveram retorno da defesa dos demais citados até a última atualização desta reportagem. A operação continua em andamento, com esforços para localizar os nove suspeitos que permanecem foragidos.



