Emendas Pix financiam shows de Safadão e outros artistas com R$ 61 milhões em 2025
Emendas Pix bancam shows de Safadão e artistas com R$ 61 milhões

Emendas Pix parlamentares destinam R$ 61 milhões para shows em cidades pequenas em 2025

Um levantamento realizado pela revista VEJA revelou que as emendas parlamentares de transferência especial, conhecidas como emendas Pix, foram utilizadas de forma massiva em 2025 para financiar apresentações artísticas em municípios de todo o Brasil. Ao todo, foram identificadas 131 transferências desse tipo, somando um montante impressionante de R$ 61 milhões em recursos federais.

Artistas de renome regional e nacional entre os beneficiados

Os recursos foram pulverizados para bancar shows de dezenas de artistas, com destaque para grandes estrelas da música brasileira. Entre os nomes mais conhecidos estão Wesley Safadão, Leonardo, Bell Marques, Amado Batista e Mikael Santos. No entanto, a relação completa dos cantores e grupos envolvidos, assim como o volume real dos repasses, permanece incerta devido à opacidade que ainda cerca essas transações.

Mesmo com as regras de transparência mais rígidas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) desde o ano passado, é possível encontrar valores que, meses após a realização dos espetáculos, continuam sem a devida prestação de contas. Essa falta de clareza preocupa especialistas e órgãos de controle.

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Casos específicos ilustram a dimensão do fenômeno

Em uma das situações documentadas, Wesley Safadão recebeu um cachê de R$ 900 mil para se apresentar em Malhador, uma cidade com apenas 11.712 habitantes nos arredores de Aracaju, em Sergipe. Para cobrir esse valor, cada morador teria que desembolsar aproximadamente R$ 75 pelo ingresso, o que ainda assim não seria suficiente.

Outros exemplos incluem:

  • Leonardo tocou em São Romão (MG) e Tucano (BA), cidades com 10.000 e 48.000 habitantes, respectivamente.
  • Amado Batista se apresentou em Porto da Folha e Moita Bonita, ambas em Sergipe, onde as populações somadas não ultrapassam 40.000 pessoas.

Preocupações com uso político-eleitoral e falta de prioridades

O que mais alarmou os analistas foi o uso político e eleitoral dessas apresentações, que muitas vezes não estão alinhadas com as prioridades essenciais do Estado, como infraestrutura, saúde, educação ou saneamento básico. Em alguns casos, as autoridades compartilham trechos dos espetáculos ou encontros de bastidores nas redes sociais, enquanto em outros episódios mais escancarados, políticos sobem ao palco, discursam e posam ao lado dos artistas.

Fora do período eleitoral, a legislação veta apenas pedidos explícitos de voto, tratando outras condutas como mera divulgação de ações de governo. No entanto, para Ana Claudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil, as emendas estão estruturando um sistema paralelo de financiamento de campanha.

“O dinheiro aplicado é público e lícito, mas não se discute a conveniência ou a qualidade desses gastos”, avaliou Santano.

Especialistas destacam problemas de fiscalização e discricionariedade

Sergio Firpo, professor do Insper e coordenador acadêmico do Observatório da Qualidade do Gasto Público, ressalta que a discussão não é se a verba pode ser destinada a shows, mas se a despesa pode ser adequadamente fiscalizada e justificada.

“Essas emendas de baixa transparência aumentam a capacidade discricionária dos prefeitos, que não necessariamente estão alinhados às demandas prioritárias de infraestrutura, saúde, educação ou saneamento básico”, afirmou Firpo.

A falta de sintonia com as necessidades mais urgentes das comunidades e o potencial desvio de finalidade dos recursos públicos continuam a ser pontos de grande controvérsia, exigindo maior atenção dos órgãos de controle e da sociedade civil.

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